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Chapter 1 - Vol 1: Capítulo da Elfa, Episódio 1: Olá, Srta. Elfa

 

As pessoas tendem a ter pelo menos um lado estranho. Tem gente que consegue sentir fantasmas e espíritos, e gente que desenha obras de arte incríveis com facilidade. Há pessoas lindas com vozes terríveis para cantar e gente magra que come feito um monstro. Também existem aqueles que não são tão atraentes, mas sempre conseguem encontros, e por aí vai.

Eu também tinha uma dessas peculiaridades estranhas. Isso estava relacionado ao fato de eu ser um assalariado comum de vinte e cinco anos, mas, acima de tudo, incluindo qualquer chance de crescimento profissional, minha prioridade era sair do trabalho na hora certa.

Assim que cheguei ao meu quarto, soltei a gravata e comecei a vestir meu confortável pijama. O jeito como eu cantarolava enquanto arrumava a cama provavelmente parecia bem esquisito. Talvez não fosse tão estranho se eu não fosse solteiro, mas, infelizmente, eu nunca tive uma namorada. Essa era minha rotina, ou melhor, o que me fazia seguir em frente. Afinal, sonhava em viver em um mundo de fantasia desde criança. Eu amava histórias sobre lutar e derrotar monstros com espadas, escudos e magia. Lembro de pegar esses livros na biblioteca e lê-los tantas vezes que ficaram gastos.

Talvez por causa dessa obsessão, eu sonhava com isso praticamente todas as noites. Lutava em um mundo de espadas e magia, participava de guerras entre continentes e explorava labirintos gigantescos. Esses sonhos começaram na infância e, mesmo adulto, eu ainda aguardava ansioso por eles toda noite.

O único problema era que eles eram realistas demais. Teria sido bom se pegassem mais leve comigo de vez em quando, mas eu já tinha sido derrotado por monstros inúmeras vezes, e não era raro acordar no meio da noite com o coração disparado. Sempre fui extraordinariamente fraco nos meus sonhos, e perdi a conta de quantas vezes fui dissolvido por aquelas criaturas gosmentas parecidas com slimes. Também fui roubado por nativos cujas línguas eu nem conseguia entender diversas vezes.

Mas, por mais assustadores que fossem, ainda eram só sonhos. Não havia dor, já que era tudo imaginação, então eu podia me dar ao luxo de fazer loucuras como partir para cima de um dragão gigantesco. Depois, acordava com a luz do sol batendo no rosto e me espreguiçava, pensando no sonho divertido que tive. Coisas assim simplesmente não aconteciam no Japão moderno.

Então, como de costume, preparei minha cama para a noite. Deixei uma garrafa d’água ao lado do travesseiro, junto com um bentô que ainda ficaria gostoso frio. Não era nenhum tipo de ritual, mas fazer isso significava que mais tarde... Bom, era mais fácil mostrar do que explicar.

Olhei para o relógio, que marcava 19h. Se tudo corresse como sempre, eu acordaria às 7h. Eu dormia mais do que a maioria das pessoas da minha idade, mas trabalhava duro e morava sozinho, então ninguém tinha nada a ver com isso. Era bom só precisar cuidar de si mesmo. Mas eu não sabia dizer se isso era um privilégio da vida adulta ou apenas mais uma prova da minha vida insignificante.

Claro, eu preferia pensar na primeira opção, mas a maioria das pessoas provavelmente escolheria a segunda.

Mas tudo bem. A vida é para ser aproveitada, e eu não tinha intenção de abrir mão do meu estilo de vida dorminhoco.

— Bom, boa noite.

E assim, mergulhei no meu cobertor aconchegante. Como um veterano do sono, soltei um ronco e entrei naquele outro mundo como sempre.

+ + + + + + + + + +

Piu piu, piu piu.

Assim que abri os olhos preguiçosamente, vi um passarinho bem na minha frente. Seu corpinho arredondado era azul e ia escurecendo nas pontas das asas. Esse carinha curioso se chamava Nuzzle, e não tinha medo de humanos. Ele recebeu esse nome por causa das ruínas próximas chamadas Nazul-Nazul. Na primavera, aparecia em busca de comida, mas parecia passar a maior parte do tempo nas ruínas.

— Ahhh... Dormi muito bem. Mas, por outro lado, eu acabei de pegar no sono agora.

E ainda assim, me sentia revigorado quando acordava no Japão também. Bom, fazia sentido, já que aqui era um sonho.

Peguei migalhas de pão do bolso da camisa e as ofereci, como sempre. O passarinho piou em gratidão, pegou um pedaço no bico e voou para longe.

Sacudi as migalhas restantes e me levantei, abafando um bocejo. Então, o sol iluminou a paisagem diante de mim: um céu azul límpido sobre um prado suavemente inclinado. Um rio corria ali perto, então eu não teria problemas para conseguir água potável.

— Hm, parece que o sonho continuou de onde parou na noite passada. Ah, é mesmo, eu tinha dormido debaixo de uma árvore...

O orvalho noturno tinha se acumulado na capa que usei como cama improvisada, e as gotículas caíram quando a sacudi. Escolhi um lugar com árvores por precaução contra a chuva, mas, pelo jeito do céu agora, não havia motivo para preocupação.

Olhei ao redor: havia uma bolsa de couro a tiracolo e algo brilhando sob a luz do sol ao lado dela.

— Aí está. Uma garrafa d’água já é bom, mas eu preciso do meu chá nas refeições.

Havia uma garrafa plástica que destoava do mundo de fantasia, e um bentô embrulhado em pano ao lado dela. Eu tinha preparado tudo antes de dormir, e, por alguma razão, enchia meu estômago quando comia aqui. Ou talvez o mais estranho fosse o fato de eu sentir fome nos meus sonhos...

— A comida nos meus sonhos é difícil de conseguir e tem um gosto horrível, então isso ajuda bastante.

Um tempo atrás, eu pescava para não passar fome, mas mudei de estratégia depois de começar a trabalhar em tempo integral. O motivo era simples: eu não queria perder tempo caçando comida quando podia aproveitar meu sonho.

Agora, coloquei tudo na bolsa e comecei a caminhar em direção ao rio. Precisava reabastecer minha garrafa e dar uma lavada no rosto para começar o dia.

Senti o frio do início da primavera ao jogar um pouco de água no rosto. Esfregar a água gelada na cara foi extremamente eficaz para me despertar do meu estado sonolento. Meu reflexo na água tremulante era bem diferente da minha aparência no mundo real. A pele lisa e jovem, os olhos com um olhar naturalmente sonolento... Ah, agora eu estava acordado, mas meus olhos sempre pareciam assim. Pelo que podia julgar pela minha altura, eu provavelmente estava na parte mais velha da adolescência. Minhas roupas pretas claramente não ofereciam muita proteção, e como escolhi algo barato, não me importava se estragassem. Suponho que o único equipamento que destoava de algo comum no Japão fosse a espada presa à minha cintura.

— Fiquei um pouco mais velho em comparação com antes, mas eu envelheço bem devagar neste mundo dos sonhos. Agora, pelo que aquele pássaro indicou, isso deve ser perto das Ruínas Nazul-Nazul.

Se eu simplesmente seguisse o curso deste rio, ele me levaria até a cidade subterrânea, mas a questão era se eu deveria continuar indo para lá ou procurar outro lugar. Enquanto pensava nisso, acariciei minha pulseira prateada e uma tela azulada apareceu diante de mim. Esses dispositivos eram distribuídos para todos os países e serviam para informar o usuário sobre seu status atual. Ele mostrava que eu estava no nível 72, o que indicava que eu estava absurdamente forte para essa área.

— Caramba, meu nível subiu bastante depois de todos esses anos.

No começo, eu era desesperadoramente fraco, mas cresci muito graças ao trabalho duro que coloquei nisso. Considerando que já estou jogando há quase vinte anos, fica difícil dizer se meu ritmo foi rápido ou lento. Mas, como não havia um grande inimigo, tipo um lorde demônio, para derrotar, eu só fui levando as coisas no meu próprio tempo. Se houvesse algum inimigo desses para me motivar, provavelmente teria me esforçado mais, em vez de passar tanto tempo aumentando minha habilidade de pesca.

— Para ser sincero, só estava subindo de nível para poder explorar outras áreas... Hm?

Foi então que senti alguém me observando. Percebi graças à habilidade de Intuição, que desenvolvi para evitar combates, mas parecia que quem quer que estivesse me olhando não estava interessado em lutar.

Uma garota de orelhas longas apareceu de trás de uma árvore e se aproximou de mim.

— Oh, bom dia, Kazuhiho. Vejo que você continua acampando de maneira primitiva como sempre. Se quer saber, acho que você parece muito mais um elfo do que eu.

— Ah, sim. Bom dia, Marie. Tive sorte de o tempo estar bom de novo hoje. Às vezes, eu acordo no meio de uma chuva pesada, e isso pode ser bem exaustivo mentalmente.

Marie inclinou a cabeça, sem entender exatamente do que eu estava falando.

Ela era da raça dos elfos e seu nome verdadeiro era Mariabelle. Eu a chamava de Marie, e, embora parecesse ter a minha idade, na verdade tinha mais de cem anos, o que era um dos motivos de ser chamada de meio-fada. Seu cabelo, brilhando à luz do sol, era branco puro como a penugem de um dente-de-leão. Ia reto até a cintura, tornando-a facilmente reconhecível mesmo de longe.

Então havia eu, que, por algum motivo, fui chamado de "Kazuhiho". Culpa minha quando era mais novo, pois digitei uma letra errada. O nome era para ser baseado no meu nome real, Kazuhiro Kitase... mas errei ao configurá-lo no início.

— Não adianta chorar pelo leite derramado... Ah, só falando comigo mesmo. Enfim, não é sempre que te vejo por aqui, Marie. Quer explorar umas ruínas comigo?

— Meu, esse é um lugar e tanto para convidar alguém. Ainda não entendo muito bem o senso comum dos humanos, mas as mulheres costumam gostar de convites para ruínas?

— Acho que depende da pessoa. Mas, se decidir vir comigo, te dou um bentô.

As orelhas longas dela se moveram na hora.

Vi um brilho nos olhos roxos de Marie e, embora estivesse óbvio que ela ficou tentada, começou a mexer no cajado que segurava atrás das costas.

— B-Bem... Se você realmente insiste, acho que posso aceitar sua oferta. Mas só para constar, estou bem ocupada com outros afazeres.

Dito isso, ela lançou um olhar para a bolsa ao meu lado. Era pequena, então o formato da caixa de bentô era visivelmente perceptível. Pelo jeito, ela tinha um paladar bem apurado. Desde que compartilhei um bentô com ela uma vez, Marie começou a esperar que eu sempre trouxesse mais. Mas, sendo orgulhosa do jeito que era, nunca pedia diretamente.

Também era raro eu encontrá-la. Desde que saiu da floresta dos elfos para viver no Sindicato dos Feiticeiros, passava os dias estudando magia. Já que tive essa oportunidade rara de passar um tempo com ela de novo, queria aproveitar e me divertir um pouco.

— Então vamos nessa. Não há muitos inimigos fortes por aqui, então é um lugar perfeito para uma caminhada.

— Acho que sua definição de "caminhada" é meio estranha. A maioria das pessoas chamaria isso de "exploração de ruínas", não de passeio de tarde. — Marie franziu as sobrancelhas de um jeito adorável ao corrigir minha falta de bom senso.

Agora que parei para pensar, a conhecia desde a escola primária, então talvez ela fosse minha melhor amiga neste mundo. Embora agisse como minha irmã mais velha às vezes, considerando que era bem mais velha que eu.

Começamos a caminhar lado a lado quando minha atenção foi atraída pelo objeto que ela carregava.

— Ah, esse é seu cajado? Quero ver!

— Hmhm, vá em frente. O cabo é feito de azevinho e, veja só, tem até um fio de cabelo de unicórnio aqui.

— Nossa, Marie, sempre me impressiona o fato de você conseguir usar magia. Deixa eu dar uma olhada melhor enquanto caminhamos.

Marie sorriu, satisfeita.

O controle sobre espíritos era uma especialidade dos elfos e, como indicava seu manto cinza, ela também era uma maga. Parecia que ela havia conseguido esse cajado recentemente, pois estava em perfeitas condições. Eu não fazia ideia de como essa coisa conseguia lançar magia, já que tudo que aprendi foi a balançar minha espada.

Era fofo ouvir Marie falar animada sobre os materiais raros do cajado, mas o mais irônico era que, na nossa primeira reunião, ela me matou. Ela foi uma elfa bem problemática, mas parecia que finalmente havia se acalmado nos últimos anos. Fiz esse comentário em voz alta, e ela me lançou um olhar levemente irritado.

— Você entendeu tudo errado. A culpa foi toda sua, sabia? Fiquei horrorizada quando você voltou à vida e falou comigo de novo com um sorriso no rosto. Achei que fosse um fantasma ou algo assim.

— Bom, de qualquer forma, não foi assassinato. E não sei se realmente estava sorrindo, mas fico feliz quando vejo você, já que é tão bonita e tudo mais.

Marie passou a mão pelo cabelo com uma expressão indiferente, como se ouvisse esse tipo de coisa o tempo todo. Ela continuava me olhando de canto, como se dissesse: “Continue...”

Eu achava adorável quando garotas faziam esse tipo de expressão. Meu corpo pode ser o de uma criança, mas, na realidade, sou um adulto. Então, poder escoltar uma garota fofa como essa estava longe de ser desagradável. Na verdade, até gostava quando ela ficava cheia de atitude assim... embora ela me odiaria se eu dissesse isso em voz alta.

Observei-a sob a luz da manhã enquanto caminhávamos ao longo do rio. A cor de seu cabelo liso era muito mais brilhante do que um simples “branco” poderia descrever. Talvez a comparação mais próxima fosse a seda. Seus olhos eram roxos como ametistas, então dizer que pareciam joias não seria exagero. Talvez por causa da longa vida que já tinha vivido, mas, apesar de termos alturas semelhantes, eu não chegava nem perto dela em termos de intelecto.

— Ah, é ali? Perto daquelas rochas cobertas de musgo.

Seu dedo esguio apontou para as ruínas em questão. O buraco semelhante a uma caverna à nossa frente, cercado por rochas cobertas de musgo, era a entrada das Ruínas de Nazul-Nazul. Elas possuíam uma longa história e, segundo rumores, já foram uma cidade subterrânea destruída mil anos atrás. Mas como uma civilização mágica tão avançada foi destruída? Esse ainda era um mistério sem solução.

— Muito bem, vamos em busca de mistérios antigos, certo?

— Você é definitivamente uma pessoa estranha. O que espera encontrar em umas ruínas onde ninguém põe os pés há séculos?

Nos aproximamos da caverna, e eu a puxei pela mão delicada. Não percebi o quão leve ela era e acabei exagerando na força. Ela foi impulsionada contra o meu peito, e seus grandes olhos redondos ficaram bem na minha frente.

— Hmph, não pode fazer algo a respeito desses seus olhos sonolentos?

— Eu nasci com esses olhos. Não tem nada que eu possa fazer sobre isso.

Ela riu baixinho e balançou seu cajado de azevinho. Um espírito de luz surgiu do cajado e começou a flutuar ao nosso redor. Em seguida, voou em direção à caverna e dissipou a escuridão no interior.

Os preparativos pareciam estar concluídos. Marie assentiu, e nossa exploração das Ruínas de Nazul-Nazul começou.

As Ruínas de Nazul-Nazul...

Há muito tempo, uma civilização foi repentinamente varrida do mapa. Na maioria dos casos, cidades destruídas chegavam ao fim devido a guerras ou desastres naturais. No entanto, aqueles que investigaram essas ruínas não encontraram sinais de conflito, e a maioria das construções estava intacta. Por isso, surgiu a teoria de que essa civilização teria colapsado devido a uma doença desconhecida. Porém, considerando o quão avançada era sua magia, essa hipótese era questionável.

— Então é por isso que esse lugar é considerado uma das sete maravilhas da região. Ele já foi investigado por inúmeras pessoas no passado, então o que faz você pensar que vai conseguir resolver o mistério?

— Não sou só eu. Tenho você comigo também. Além disso, não me importo se não conseguir. O que vale é a intenção de tentar resolver.

Nossos passos ecoavam enquanto continuávamos a explorar as ruínas. O teto era muito alto, impossível de ver através da escuridão, mesmo com o espírito de luz nos acompanhando. Sua invocadora, Marie, conjurou mais espíritos conforme recuperava sua energia mágica, e agora já havia cinco deles flutuando ao nosso redor.

— Então está dizendo que nos considerará sortudos se encontrarmos algo? De qualquer forma, esse lugar é bem maior do que pareceu do lado de fora. Nunca teria imaginado que era tão espaçoso.

— Sim, afinal, era uma cidade inteira. A entrada é apenas parte do sistema de esgoto.

Parecia que o curso d’água era crucial para as ruínas. O rio fluía pelo caminho formado por pedras, e como ainda havia água ali, ou a fonte não havia secado, ou a água da chuva estava se acumulando. A estrutura parecia bem simples, feita de rocha básica. No entanto, vi muitas inscrições mágicas no caminho que serviam para aumentar sua durabilidade. Provavelmente era por isso que havia resistido por mil anos.

— Isso é uma tecnologia incrível, conseguir durar mil anos assim. Eles não podiam ter usado isso nos prédios da cidade também?

— Acho que não. Isso foi construído sobre um veio mágico, para que não precisasse ser constantemente reabastecido com mana, o que significa que há condições bem restritas para isso. Também exigiria um conjurador altamente qualificado, e duvido que alguém pudesse pagar por isso.

Hm... Eu não entendia muito bem, mas parecia algo impraticável. Vindo de um país propenso a terremotos como o Japão, ver uma magia que aumentava a estabilidade assim me deixava com inveja.

As longas orelhas da garota se mexeram ao ouvir meu murmúrio, e então ela se virou para mim.

— Terremotos são realmente assustadores, mas não devem acontecer com tanta frequência. De onde exatamente você é?

— Ah, sou do Japão, mas provavelmente não está em nenhum dos seus mapas. É um país insular bem distante daqui.

Ela fez um som indiferente e contorceu o rosto de um jeito difícil de dizer se estava interessada ou não.

Cabelos e olhos negros eram uma combinação rara nesse mundo, mas o que realmente despertava seu interesse era o meu bentô. Eu sabia que a única razão para ela ter me acompanhado até as ruínas e continuar lançando olhares para minha mochila era por causa do almoço que eu havia preparado.

Já fazia um tempo desde que entramos. O cansaço começaria a se instalar em breve, então encontrei um espaço aberto onde poderíamos descansar e me virei para ela.

— Aquele lugar parece bom para sentarmos. Que tal fazermos uma pausa para o almoço?

— Boa ideia! Estou curiosa para saber o que você trouxe hoje, hehe~

Os passos da elfa de repente pareceram mais leves, e ela me ajudou animadamente a preparar tudo. Pensar que ela tinha mesmo cem anos... Elfos realmente eram difíceis de entender às vezes. Bem, mesmo que ela estivesse só atrás da minha comida, era bem fofo ver o quanto ela se expressava assim.

Entreguei para ela a marmita coberta por um pano, e seus olhos roxos brilharam mais do que seus espíritos de luz.

— E-eu vou abrir agora...

— Claro, vai em frente. Você provavelmente não sabe como usar hashi, e já lavou as mãos, então pode comer sem talheres mesmo.

A garota abriu a marmita e piscou os olhos, maravilhada como uma criança. O menu de hoje tinha um suculento inarizushi e chikuzenni, que era uma delícia até na textura. Podia não ser o prato mais chamativo em termos de cor, mas o aroma delicioso era tentador. O cheiro forte do shoyu realçava a doçura sutil que vinha depois, despertando o apetite de qualquer um, quisesse ou não.

— Hmm, esse cheiro... É maravilhoso!

Não pude evitar sorrir ao vê-la inspirar várias vezes com a tampa ainda na mão.

— Pode comer. Não sou tão bom com esse tipo de prato cozido, mas gosto de como dá para fazer um monte de uma vez e ainda fica gostoso frio.

Fiz um gesto para que ela começasse a comer, e ela pegou primeiro o inarizushi. O caldo escorria pelos seus dedos enquanto ela segurava o bolinho de arroz. Sem se preocupar com isso, ela levou até os lábios, e o suco se espalhou em sua boca.

— Nn! Mmm... Tão... doce!

O leve aroma do shoyu. Ela lambeu os dedos e franziu um pouco a testa antes de mastigar o inarizushi, repleto de umami. O sabor doce natural do arroz veio com tudo. O caldo e o agridoce se misturavam, deixando um leve toque de gergelim no final. A elfa parecia completamente encantada, mastigando com os olhos fechados.

— Aqui, toma um chá. Bebe devagar.

Mesmo naquele estado de satisfação, ela fez uma reverência educada e pegou a garrafa plástica. No começo, o material a surpreendeu, mas agora já estava acostumada.

— Nn... nng... Paah! Estou impressionada. Parece que suas habilidades melhoraram de novo. Então, o que é essa coisa marrom?

— Inarizushi. É ótimo porque mantém o sabor mesmo frio. E esse aqui é chikuzenni. É feito com vegetais da primavera, então é bem nutritivo. Aqui, prova um pouco.

Marie assentiu várias vezes antes de jogar brotos de bambu e raízes de lótus na boca. A textura crocante atiçava ainda mais seu apetite, e ela alternava entre o inarizushi e os vegetais cozidos.

Era difícil acreditar que uma elfa tão magrinha conseguia comer tanto. Mas era divertido vê-la devorar a comida, mordida após mordida, mesmo sendo muito mais esbelta do que eu. Depois de tomar um pouco de chá e descansar, ela se virou para mim com um sorriso.

— Hehe, eu sabia que valia a pena vir junto, Kazuhiho. Sempre quis saber, mas isso tudo foi feito em casa?

— Sim, a de hoje foi. Mas quando não estou com vontade de cozinhar, só compro na loja.

— Onde vendem isso?! Anda, me conta! É perto, em Sissle? Ou em Phlox?

Eu não podia dizer que era do Japão. Se eu tentasse evitar a pergunta e desse uma resposta vaga, ela ia inflar as bochechas e ficar brava por eu estar “escondendo o segredo de novo”.

— Bem, eu te trago mais quando quiser. Vamos vir aqui de novo quando você estiver livre.

— Estou ocupada com os estudos, então não é como se eu tivesse muito tempo livre... maaas acho que posso arranjar um tempinho de vez em quando.

Não era sempre que ela me mostrava um sorriso tão bonito assim. Diziam que ela normalmente não gostava de humanos, então me sentia estranhamente feliz quando ela era amigável comigo. Era como interagir com um animal selvagem que nunca deveria se acostumar com você... Mas pensar assim sobre elfos provavelmente era bem rude.

— Devíamos ir logo. Quero sair daqui antes do pôr do sol.

— Sim, devemos. Mas estou bem cheia... Podemos andar devagar?

Lavamos os dedos com a água da garrafa e limpamos as mãos com uma toalha antes de nos levantarmos para ir embora. Por fim, sacudimos a poeira das roupas, encerrando assim nosso pequeno almoço divertido.

As Ruínas de Nazul-Nazul eram cheias de cursos d’água e umidade por toda parte. Caminhávamos ao longo do canal e espiávamos dentro das moradias pelo caminho. Mesmo sendo ruínas de mil anos, por estarem no subterrâneo, a deterioração era lenta, e era fácil imaginar que pessoas já viveram ali.

Fiquei me perguntando que tipo de gente escolheria morar num lugar tão escuro antes de ser destruído há mil anos. Enquanto pensava nisso, notei algo se movendo nas sombras.

— Oh, um monstro. Espera aqui um instante... Heeey, ooooi?

Deixei a surpresa Marie para trás e me aproximei da sombra, que virou-se lentamente para mim. O monstro parecia um lagarto bípede, mas era bem mais largo que um crocodilo. Este aqui parecia estar no nível vinte e era considerado bastante feroz.

Chamavam-nos de homens-lagarto. Era meio estranho que até as fêmeas tivessem “homem” no nome, mas enfim. Ele me olhou com seus olhos redondos e abaixou a cabeça. Parte disso era pela diferença absurda de nível, mas também porque eu conseguia entender sua língua, então raramente acabávamos brigando sem um bom motivo.

— Ah, se não é o Kazuhiho. Passeando com uma elfa hoje? Cara, que inveja!

— Bem, acho que ela só quer a minha marmita...

A maioria dos homens-lagarto não era muito acostumada a conversar, então algumas palavras saíam meio estranhas. Mas algumas espécies de monstros nem sequer tinham uma linguagem própria, então isso ainda era tranquilo para lidar.

— Só viemos explorar essas ruínas. Então, essa área é segura?

— Eu não diria isso... Tem um dragão fazendo ninho lá no fundo, e ela acabou de entrar no período de postura. Seria perigoso se aproximar. Meu povo é uma subespécie dos homens-dragão, como você já deve saber, e protegemos os dragões desde os tempos dos nossos ancestrais. Mas os mais jovens hoje em dia falam coisas como: “Somos lagartos, não dragões!” Mas... enfim. De qualquer forma, a dragonesa ali no fundo está bem irritada agora. Eu recomendaria não ir para aquele lado.

Ele era bem falante para um lagarto.

Eu acenei para o lagarto prestativo e me afastei. Corri até Marie, e ela me olhou com os olhos ligeiramente arregalados.

— Meu Deus, agora você sabe falar com monstros? Onde você aprendeu isso? Duvido que exista qualquer literatura sobre o assunto.

— É... eu meio que me joguei de cabeça nisso. Perdi a conta de quantas vezes fui atacado, e levei uns três anos para aprender. Você lembra de quando aprendi élfico com você? Foi mais ou menos assim.

— Ah, então você realmente se jogou de cabeça nisso, hein...? Agora fiquei com pena dos monstros.

Até mesmo uma elfa, que vivia por um tempo quase infinito, parecia ter dificuldade em entender minhas escolhas de vida. Ela pressionou o indicador contra a testa e o mexeu para cima e para baixo, como se estivesse lutando para processar aquilo.

Havia muitos tipos diferentes de idiomas de monstros, divididos em categorias que iam do Grupo A ao Grupo E. Eu me perguntei que tipo de cara ela faria se eu contasse que já tinha aprendido até o Grupo C.

— Mas é muito útil. Quer que eu te ensine, Marie?

— Tenho que admitir, estou um pouco interessada... Então, talvez eu possa te pedir para me ensinar amanhã, se tiver tempo.

— Claro, não me importo. Faz um tempo que não faço planos com você assim, então isso me deixa feliz.

Ela me lançou um olhar desconfiado, como se estivesse tentando descobrir se eu estava dando em cima dela. Eu não queria me justificar, mas agora que eu tinha vinte e cinco anos no mundo real, passar um tempo com garotas bonitas era algo extremamente valioso, e só de sair com ela já me fazia feliz. Mas não diria isso para ela, porque provavelmente só me olharia como se eu fosse algum tipo de pervertido.

— Mas enfim, um dragão na época de desova, hein...? Quero dar uma olhada.

— Lá vem você de novo... Pretende fazer alguma receita exótica de outro mundo ou algo assim?

— O quê? Não, claro que não. Embora... eu tenha lido que ovos de répteis vêm em diversos tipos. Alguns são como uma substância gelatinosa, outros têm cascas duras, e há os que são macios e flexíveis. Dizem que ovos de dragão são oleosos, mas será que é verdade? Hmhm, acho que só vou saber se comer um.

Ela me lançou um olhar como quem dizia "sabia que você ia falar isso". Mas, mesmo assim, eu queria ver algo assim pelo menos uma vez na vida. Não que eu pretendesse comer, claro, mas estava muito curioso para descobrir como era um ovo de dragão.

Arrastei Marie em direção às profundezas das ruínas, apesar da sua relutância evidente.


Eu vesti uma capa com Efeito de Furtividade sobre a cabeça e cobri todo o meu corpo, depois me arrastei pelo chão como uma lagarta. As fadas de luz já haviam sido dispensadas, e a escuridão envolvia tudo ao redor. Prendi a respiração e olhei para o lado, encontrando um par de olhos roxos e melancólicos voltados para mim.

Passamos pelo canal de água seco e chegamos ao que parecia ser a área mais profunda dali. Um som baixo e assustador ecoava ao nosso redor, e não havia nenhum sinal de monstros. Isso também provocou uma imagem inquietante na minha mente.

O que poderia haver à frente...?

Avancei com a elfa e olhei para baixo a partir do platô rochoso, encontrando apenas trevas nos esperando. O som alto e ritmado de algo respirando em suas profundezas era um sinal óbvio de que um dragão ancestral dormia lá embaixo. Mas, é claro, eu não tinha a habilidade de enxergar na escuridão total.

(Mantenha-se parado, Kazuhiho. Vou te dar visão noturna também.)

(Uau, valeu, Marie. Você nunca deixa de me impressionar.)

Eu sempre podia contar com Marie. Ela podia usar Feitiçaria além da Magia Espiritual, o que lhe permitia se adaptar a uma ampla gama de situações.

Seus dedos, que ela pressionou firmemente contra a minha testa, brilharam levemente na penumbra. Isso aparentemente me concedia um buff que amplificava a luz, como os olhos de um gato, fazendo parecer que tudo ao meu redor estava iluminado.

Olhei para baixo novamente, meu coração disparando, pois agora podia ver claramente um enorme dragão.

Tão grande...

Julgando pelo tamanho e pela intensidade assustadora, poderia ser um dragão lendário raríssimo. Seu nível estimado talvez até superasse 1.000. Sendo apenas nível 72, eu não teria a menor chance contra ele.

(É realmente grande... Você sabe qual é o nome desse dragão?)

(É negro e possui uma magia densa, então possivelmente é um arkdragon, um tipo de magi drake. Olhe, as marcas na superfície do corpo dele estão se movendo. Então é verdade que eles conseguem gerar magia apenas respirando...)

Marie parecia tímida no começo, mas agora seus olhos brilhavam de curiosidade.

Mas... como dizer isso...? A capa não era tão grande assim, então ela estava segurando meu braço bem firme. Ela podia ser esbelta, mas ainda era uma garota. Meu braço estava espremido entre os dois montes em seu peito e...

(Você está ouvindo, Kazuhiho? Sabe o que significa se esse realmente for um arkdragon? A época de desova deles só acontece uma vez a cada mil anos. Uma única escama dele... não, até mesmo uma gota de saliva poderia ser vendida por um preço altíssimo! Ai meu Deus, isso é tão emocionante!)

(Você às vezes é bem pouco élfica, Marie. Já te disseram que você tem uma mentalidade bem mundana?)

Em resposta ao meu comentário, seus olhos ametistas se voltaram para mim. Seus cílios pareciam ainda mais longos de perto, e ela parecia uma bela boneca com sua pele pálida. Mas ela me lançou um olhar frio, então não pude continuar encarando.

(A culpa é sua, Kazuhiho. Eu nunca teria me interessado pelo mundo humano se não fosse por você. Foi você quem me encheu a cabeça com histórias da cidade cheia de emoções e todas as coisas que eu adoraria comprar.)

Hã? E isso é culpa minha? Eu disse que a levaria para o mundo exterior em algum momento...?

Já tinha visitado a vila élfica dela antes, passado um tempo por lá e aprendido um pouco de élfico. Mas não me lembrava de ter feito qualquer convite para sair de lá.

Mas, mais importante que isso, a sensação dos seios dela pressionando meu braço com mais força talvez fosse o verdadeiro problema aqui. Eu podia ser mentalmente maduro, mas Marie poderia ser um pouco mais recatada quanto a essas coisas.

Bem, não que eu estivesse reclamando, é claro.

Logo percebi que não era hora de me preocupar com essas coisas. Os olhos do arkdragão haviam se aberto antes que eu me desse conta, e agora ele emitia um rosnado de aviso.

(E-Ele não notou a gente, né? Digo, os olhos dele estão...)

(Sim, está olhando diretamente para nós. Mas não se preocupe, já garanti uma rota de fuga.)

Olhei para trás e vi uma pequena caverna. Era apenas grande o suficiente para caber nós dois, então não havia como o dragão nos perseguir por ali.

Baaam!

Grades caíram com um som metálico pesado, e nós dois congelamos no lugar.

Não me diga que isso é um evento inevitável! Talvez realmente seja de nível lendário!

A música retumbante que veio em seguida sinalizou o início da batalha, e seu tom imponente indicava o poder do nosso oponente. Era um ritmo surpreendentemente lento e constante, mas pelos sons graves da melodia, dava para sentir que haveria tristeza e desespero seguidos por um fim trágico. A música nos dizia que estávamos prestes a encarar a morte, e tudo o que podíamos fazer era tremer enquanto nos abraçávamos.

As garras gigantescas do dragão pousaram em uma saliência com um ruído estridente, seus olhos brilhantes surgindo diante de nós. Abracei Marie em meus braços numa tentativa de protegê-la, mas então a boca do dragão se abriu como a garganta de um vulcão.

Foi uma visão que abalou minha alma: o sopro do dragão se acendendo bem diante dos meus olhos.

Sim, parece que vou morrer de novo hoje. Queria pelo menos ter visto os ovos dele...

Assim que esse pensamento despreocupado cruzou minha mente, meu entorno foi envolvido por uma torrente furiosa de poder, e senti cada pelo do meu corpo evaporando. Desapareci num instante. Minha própria existência foi destruída antes mesmo que eu pudesse sentir dor.

A imponência dessa criatura era ao mesmo tempo aterrorizante e fascinante...

Então, a feroz rajada de energia que havia distorcido a própria luz parou de repente. O mundo passou do preto e branco para cores vibrantes novamente, e o arkdragão soltou um grunhido satisfeito enquanto a tranquilidade retornava à caverna. Eventualmente, ele desceu pela parede íngreme e voltou ao seu ninho de ovos.

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Soltei um longo bocejo no quarto completamente escuro e afastei meu cobertor confortável para esticar os membros. Como esperado, ainda estava noite, e olhei para o relógio para ver que eram três da manhã.

Que pena. Estava me divertindo tanto com a Marie...

Cocei a cabeça, pensando em como queria ter passado mais tempo com ela.

Se eu fosse derrotado no meu sonho, como aconteceu antes, ou se adormecesse por lá, acabava sendo forçado a acordar aqui. Então, quando olhei para a garrafa e a marmita ao meu lado, estavam, como esperado, vazias.

Esse é o meu "lado estranho", apesar de ser um assalariado comum de resto. Eu podia brincar e comer nos meus sonhos... não que fosse algo de que eu pudesse realmente me gabar.

Murmurei para mim mesmo e acionei o interruptor ao lado da cama para ligar a iluminação indireta. A escuridão foi dissipada, assim como fariam os espíritos da luz. Mas bem quando eu estava prestes a me levantar para ir ao banheiro, congelei. Era seguro dizer que qualquer um ficaria surpreso se, de repente, notasse a pele nua do braço de alguém enrolado em seu peito.

Virei-me lentamente para o lado e vi cabelos mais brancos do que meus lençóis e a pele lisa de um ombro...

— M-M-Marie?! — gritei histericamente, apesar de ser madrugada. Qualquer resquício de sono sumiu instantaneamente.

Na minha cama, dormia confortavelmente uma garota meio-fada elfa.

E assim, o evento mais bizarro da minha vida foi imediatamente superado por aquele momento. Era algo levemente... não, incrivelmente peculiar, mas parecia que meu sonho havia se tornado realidade, e uma elfa apareceu no meu quarto.


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