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Chapter 02 - Vol 1: As Ruínas do Descarte

 Capítulo 2:

As Ruínas do Descarte

DIZEM QUE meus pais eram pessoas horríveis. O abuso era constante, criar uma criança naquele ambiente era impensável, e eu acabei sendo distorcido por isso.

— Pirralho maldito, sempre com esse olhar triste e nojento! — meu pai gritava, antes de me chutar no chão.

— Queria que você nunca tivesse nascido! A gente nem pode matar nossos próprios filhos inúteis? Que país é esse, meu Deus?! — minha mãe dizia.

Depois de um tempo, comecei a ter pensamentos violentos também.

Um dia… Um dia eu vou matar eles.

Pensando agora, acho que era só meu instinto de sobrevivência. Tinha uma parte do meu cérebro que tinha certeza de que, cedo ou tarde, eles iam me matar… e queria agir primeiro.

Foi aí que meu lado sombrio começou a despertar.

Mas um dia, os dois simplesmente desapareceram e me deixaram sozinho.

Simplesmente… evaporaram, sei lá. Meu tio e a esposa dele viraram meus pais adotivos. Tinham recebido uma ligação dos meus pais pouco antes de sumirem da minha vida pra sempre.

— Fiquem com o moleque.

Foi só depois que comecei a viver com meus pais adotivos que percebi que minha infância não tinha sido nada normal. Meu tio e minha tia eram boas pessoas, então eu queria ser um bom garoto pra eles. Não queria dar trabalho pra ninguém—eu devia isso a eles. Mimori Touka aprendeu o que era bondade com eles. Não demorou até ele virar como o ar—alguém inofensivo, fácil de ignorar.

Mas, pouco antes de ser teletransportado para aquelas ruínas escuras, algo mudou. Ele me deixou sair.

O verdadeiro Mimori Touka.


Abri os olhos.

Estava deitado sobre uma pedra molhada que espetava minhas costas. Levantei a cabeça. Escuridão total.

— Então essas são as Ruínas do Descarte…

Tudo preto. Preso no breu. Meus status… consigo ver eles?

— Status Open.

Visão obstruída. Incapaz de exibir status.

Uma voz monótona repetiu as palavras dentro da minha cabeça.

Ok, então eu preciso realmente enxergar pra usar isso. Mas talvez eu possa usar… isso aqui?

Tateei no escuro até minha mão bater em algo.

— Aqui está.

A bolsinha de couro. Meu item mágico único.

Segurei com as duas mãos e passei o polegar pelo cristal. Tentei me lembrar da explicação da Deusa.

Então eu tenho que colocar mana nisso e vai acender?

Lembrei da sensação de usar minha habilidade contra ela e imaginei canalizar aquele poder no cristal. Ele começou a piscar bem fraquinho em alguns pontos, até que a luz cresceu e ele inteiro começou a brilhar.

Uau, que daora… É como se eu estivesse mesmo usando magia.

Ainda não conseguia ver muito, mas com aquela luz fraca dava pelo menos pra enxergar um pouco ao redor. Pedra pura por todos os lados, e um teto irregular pendendo lá em cima. O chão era estranhamente irregular e desnivelado.

— Isso aqui é mais uma caverna do que uma ruína, né? Hã? O que é aquilo…?

Me levantei e fui até lá.

—?!

U-um crânio? Ossos humanos?

Quer dizer… meio crânio. Cadê a outra metade? Algo cortou ele no meio…?

Minha respiração travou na garganta.

O que… o que poderia ter feito isso…?

Tinha algo extremamente perigoso à espreita nessas ruínas.

Meu coração começou a disparar.

Ninguém sobrevive aqui embaixo—foi o que a Deusa disse. Então é provável que eu morra aqui também. Falei bonito, mas… não sei se vou sair daqui com vida…

Me sentia grogue, meio fora de mim, como se ainda estivesse acordando e o mundo não tivesse focado direito. Minha cabeça latejava agora, martelando nas têmporas, e eu sentia o suor escorrer pelas costas.

Eu vou morrer? Eu vou mesmo morrer aqui?

Esse pensamento me atingiu com força. O cheiro da morte ainda impregnava o ar, deixado por todos os que foram descartados antes de mim.

Será que vou me juntar a eles?

Passos.

A morte está chegando mais perto.

Meu coração batia fora de controle.

Pulsação acelerada.

Instintos gritando.

Não é seguro aqui.

Sobreviva.

Você tem que sobreviver.

Estava ficando mais claro, de algum jeito. O crânio ficou tingido de laranja pela luz…

Tem alguma coisa ali. Atrás de mim. Algo brilhando em laranja.

— Hfff… Grrrgh… Graaah…

Um monstro.

O fedor invadiu minhas narinas.

Dava pra ouvir algo pingando… algo que chiava e borbulhava ao tocar o chão de pedra.

Que som é esse… algum tipo de ácido? O que diabos tem atrás de mim…? Quero saber, mas se eu virar agora, vai me matar.

Minha razão pisou no freio, dizendo que ficar imóvel era a melhor escolha — mas, um instante depois, meus instintos assumiram o controle.

Corri… e tropecei nos próprios pés na mesma hora.

Enquanto eu caía, algo enorme passou zunindo por cima da minha cabeça, errando por pouco. Me levantei cambaleando e continuei correndo, como se o vento daquilo tivesse me empurrado.

Foi por pouco… Aquilo tentou me acertar? Me agarrar?! Foi direto na minha cabeça!

Estava correndo o mais rápido que conseguia, sem tempo pra olhar pra trás. Cada célula do meu corpo gritava de medo. Meus dentes batiam dentro da boca.

Essa coisa é muito mais forte que eu, e dá pra sentir que ela quer me matar — eu literalmente sinto isso. Não é igual à Deusa—ela tinha uma presença, era intimidadora, mas essa coisa… essa coisa só quer me despedaçar o quanto antes.

Percebi com um choque que minha bolsinha ainda estava brilhando—meti ela na roupa correndo.

Agora ela não deve mais conseguir me ver… ok, é um plano. Me esconder na escuridão.

Por favor… me deixa ficar escondido…

Tentei controlar minha respiração desesperada. Meus pulmões estavam vazios, minhas pernas dormentes.

Eu não… não consigo pensar direito…

Não.

Não pensa—só corre.

Eu não quero morrer.

Meus instintos assumiram de vez. As lágrimas voltaram aos olhos enquanto eu me arrastava pra frente — não de tristeza ou alegria, mas de puro medo.

Ou…? N-não… não era só medo. Pelo menos, não só isso.

Engasguei nas lágrimas, tentando puxar ar suficiente pra continuar correndo. Não conseguia nem entender direito o que estava sentindo — mas não era a primeira vez que me sentia assim naquele dia.

Meu pé prendeu em alguma coisa saindo do chão e me jogou no chão de novo.

F-figura, né… sorte eu ter chegado tão longe correndo no escuro.

— Haah… haah… haah…!

Agora eu entendi... Eu não tô chorando de medo.

Me virei para encarar a coisa que se erguia atrás de mim.

Eu não tô com medo.

—Que se dane...

Eu tô com raiva!

Um monstro estava parado diante de mim — humanoide, com cabeça de touro, como o Minotauro daqueles mitos gregos antigos. Mas de algum jeito era ainda mais horrível que isso — olhos dourados e injetados de sangue, veias laranjas e grossas cruzando o peito negro e musculoso, chifres enormes e rachados como os de um alce. Havia protuberâncias montanhosas por todo o corpo que jorravam um líquido como se fossem vulcões em erupção... líquido que fervia e estalava ao pingar na rocha abaixo.

A rocha estava derretendo.

Então era esse o som que eu ouvi antes...

Também explicava a rocha irregular que eu encontrei quando cheguei aqui.

—Droga... essa coisa é rápida demais.

Não dá pra fugir. Será que a Deusa conseguiria vencer um desses minotauros deformados? Será que o Kirihara conseguiria acabar com ele usando aquela habilidade explosiva dele? A Deusa disse que jogou aqui embaixo “guerreiros fortes mas inadequados”... mas ninguém nunca saiu vivo. Aquele monstro deve ter matado todos eles.

Então que chance um Classe E como eu teria?

—Que inferno...

Então é isso... os momentos finais de Mimori Touka. Eu queria pelo menos agradecer aos meus pais adotivos. Obrigado por terem sido tão bons comigo. Eu planejava dizer isso no dia em que me formasse no ensino médio. Não devia ter esperado.

Sogou Ayaka também. Eu devo minha vida a você pelo que fez. Não é nem de longe o suficiente, mas essas duas palavras vão ter que bastar:

Obrigado. Obrigado por tentar me ajudar.

Ploc. Ploc. Ploc.

O minotauro estava se aproximando — meu tempo estava acabando.

Os humanos enviados pra cá provavelmente viram jantar dele. Será que ele só fica aqui, esperando que mais gente seja teleportada?

Minhas unhas rasparam o chão.

Sem armas. Uma bolsa de couro brilhante. Status péssimos. Habilidades inúteis.

Comecei a me levantar, mas... parei.

Mesmo que eu corra, esse minotauro corre mais. A essa distância, não tem como ele não me alcançar, e depois de correr tanto eu nem tenho mais energia pra tentar. Xeque-mate. Acabou.

Fechei os olhos e deixei minha mente vagar.

—Sai logo da frente, lixo de Classe E.

—É uma pena que eu não possa ver sua morte patética, Mimori!

—Abandone suas preocupações mundanas e entre num sono pacífico, Mimori Too-ka...

—Um suspiro final digno de um traste descartável.

Abri os olhos, com a raiva fervendo dentro de mim. Todos eles conseguiram exatamente o que queriam.

Eu não posso acabar assim... Não posso.

Mordi o lábio.

—Eu quero... poder.

O minotauro rugiu. Um braço musculoso e com garras avançou pra me agarrar.

Eu também levantei meu braço, na direção do monstro. Dois braços estendidos que só podiam se encontrar na violência.

Eu sabia que aquela palma gigante vinha pra esmagar meu crânio.

Eu não quero morrer assim. Não posso desistir sem tentar! Minha habilidade pode ser inútil, mas... talvez eu consiga pelo menos acertar um soco.

Não sei se era a raiva borbulhando no meu estômago, ou meu instinto de sobrevivência ativando no último segundo. Mas alguma coisa dentro de mim ainda queria lutar.

Minha habilidade única — Aplicar Efeito de Status...

—P-paralisar...

A última resistência de Mimori Touka...

Fechei os olhos.

“...”

Vários segundos se passaram... e nada aconteceu.

Pera... minha cabeça já devia ter virado pó, né?

Meu rosto suava em bicas, e eu tremia de medo. Lentamente, hesitante, levantei a cabeça e abri os olhos.

O minotauro estava parado no lugar.

—Hã...? Isso... funcionou mesmo?

A Deusa tinha me dito que magias de status mal funcionavam até contra monstros de nível baixo... não tinha como esse minotauro ser de nível baixo, né? Ele não parecia fraco nem um pouco... e por que haveriam monstros fracos num lugar usado pra descartar guerreiros fortes?

Deve ter sido uma sorte absurda.

Mas aí me lembrei das palavras da Deusa:

"Mesmo que, milagrosamente, funcione, os efeitos são mínimos e a duração, extremamente curta."

Me levantei num pulo e comecei a correr.

Tenho que fugir dessa coisa!

O tempo que passei caído me fez recuperar um pouco da energia. Eu não podia desperdiçar essa chance. Depois de alguns poucos passos, já estava ofegante de novo.

Ai, caramba... sem fôlego... será que é o meu status de vitalidade...? Ou de velocidade...? Aposto que heróis de nível alto conseguem correr muito mais.

Tapei a boca com a mão. Precisava parar de respirar tão alto...

Onde é que eu tô, afinal?

Olhei ao redor, em pânico, checando atrás de mim.

Não vi nada. Será que consegui escapar?

“...”

Minhas pernas doíam — eu estava exausto. Me inclinei pra inspecionar os tornozelos e joelhos com as mãos.

Sem torções... eu acho. Posso descansar um pouco, né? Depois vou procurar um caminho pra superfície... deve ter algum—

—Uh.

Olhei pra cima e congelei.

Como fui tão burro? Claro que tem mais de um...

Aquele lugar de onde eu vim devia ser o território do minotauro. Óbvio que se eu saísse de lá ia dar de cara com outra coisa.

—Bwaa-aak! Bwaaak! Bwaaaak!

Que porra é essa...? Algum tipo de monstro-pássaro? Um cockatrice?!

A cabeça parecia de ave, com uma crista enorme no topo — ou seria um chifre? O pescoço magricela tremia violentamente. Abaixo disso, parecia um humanoide de quatro braços, com pele negra e veias alaranjadas, igualzinho ao minotauro. No lugar das mãos, tinha garras enormes.

Os sons que ele fazia eram estranhos e só vagamente lembravam os de um pássaro. Um ácido grosso escorria de buracos no corpo e chiava ao cair no chão.

Um dos olhos de pássaro girou na órbita e me encarou enquanto ele grasnava aqueles sons esquisitos. Alguma coisa escorria da boca — saliva? Será que ele tá com fome?

—Bwaaaa-waaaaak! — gritou, agudo e arrepiante. Seus braços com garras se moviam como pistões conforme ele se aproximava.

Um golpe dessas garras provavelmente já seria fatal. Será que dá pra fugir...? Não, sem chance. Pelo menos eu vi o minotauro antes dele chegar perto — essa coisa aqui é ainda mais rápida.

Eu preferia mil vezes ter implorado pra lutar contra o Kirihara e os outros — eu encararia aquele Dragonic Buster qualquer dia da semana. Maldade e crueldade não chegavam nem perto da sede de sangue pura e crua que eu senti vindo dessas coisas.

Eles estavam tentando me matar pra me comer? Pela própria sobrevivência? Ou eram só criaturas distorcidas que não viam problema em assassinar? Não importava o motivo, eu sabia que eles queriam me matar. Aquela coisa com cabeça de pássaro era tão forte quanto o minotauro, talvez até mais. Saí da frigideira direto pro fogo.

Todos os guerreiros e heróis que foram mandados pra cá… Devem ter morrido desse jeito. Alguém forte talvez até conseguisse derrotar um, mas logo viria outro em seguida. Provavelmente tinha um número incontável de monstros por aqui. Eventualmente, até o mais forte chegaria no limite da própria resistência e força de vontade.

Não… Eu não quero morrer.

Eu não quero morrer…

Eu não quero morrer!

Levantei a mão sem nem perceber.

Então é assim que é… orar?

— Para…lisa.

— Bwa—aa—aah—

Abri os olhos, e minha mandíbula caiu.

Acho que ainda não gastei todo o meu estoque de milagres.

— Funcionou… de novo?

O monstro com cabeça de pássaro parecia se esforçar pra se mexer, com suor escorrendo pela cara emplumada. Mas continuava completamente imóvel.

Paralisia. Funcionou de novo.

Torcendo pra que aqueles quatro braços não voltassem a se mover do nada, eu passei correndo pelo monstro e disparei dali o mais rápido que consegui. Uma teoria surgiu na minha cabeça, como se fosse uma revelação.

Não pode ser.

Mas…

Talvez esse milagre seja maior do que eu imaginava. E se minha habilidade funcionou duas vezes porque… ela sempre funciona? Usei um efeito de status num monstro duas vezes nessas ruínas supostamente invencíveis. E o minotauro não veio atrás de mim. Nem a cabeça de pássaro. E se… a “Habilidade de Efeito de Status” que a Deusa mencionou e a minha habilidade forem… coisas completamente diferentes? Talvez a minha habilidade sempre acerte. Talvez ela dure bastante tempo.

— Se isso for verdade, então… — Olhei pra trás, pra cabeça de pássaro paralisada que tinha deixado.

— Talvez eu consiga sair daqui com vida.

Minha mente disparou — será que era mesmo possível? Eu podia mesmo escapar?

Calma. Primeiro preciso checar uma coisa.

Me enfiei de novo na abertura rasa na pedra que eu tinha encontrado antes. A luz da bolsa de couro estava enfraquecendo, então coloquei um pouco mais de mana nela, e ela voltou a brilhar levemente.

Beleza — pelo menos dá pra enxergar.

— Status, abrir!

Ok. Aqui está.


Too-ka Mimori

Nível 1

HP: +3 MP: +1 / 33

Ataque: +3 Defesa: +3 Vitalidade: +3

Velocidade: +3 Inteligência: +3

Título: Herói Classe E


Como esperado, minha mana estava acabando. Usei o Paralisar três vezes — uma vez na Deusa, uma no minotauro, e uma na cabeça de pássaro… então era 10 MP por uso? Os outros dois pontos de mana devem ter sido o que gastei na bolsa de couro.

Isso é ruim… basicamente já tô sem mana.

Pensei em tudo o que a Deusa tinha me dito. Talvez não fosse exatamente verdade — ela disse que nossos status eram modificadores, na real. Então eu tô sem mana extra… mas a quantidade real de mana que me resta depende das minhas habilidades naturais, da mana dentro de mim que não dá pra expressar com números.

Mas não tem como saber quanto ainda me resta… se for menos de dez, não consigo usar minhas habilidades de novo…

Minha única arma, inútil.

Xeque-mate.

Não saber quanto de mana ainda tinha me deixava ansioso, mas era melhor do que ter certeza de que eu ia morrer. Sacudi o medo e virei pra página das habilidades.


Habilidade Única: Aplicar Efeito de Status / Disponível para uso


E lá estava de novo.


Paralisar: Nível 1 / Custo de mana: 10 MP
Sono: Nível 1
Veneno: Nível 1


Então preciso usar a habilidade ao menos uma vez pra ver o custo de mana…?

— Tô ferrado.

Levei as mãos à cabeça. Era inútil. Não tinha como minha mana durar até eu chegar à superfície.

Será que regenera com o tempo? Talvez se eu dormir, tipo em um RPG? Mas mesmo que regenere, daria o quê? Trinta de mana? Eu sou Classe E, não posso contar com muita mana natural.

E o que acontece se eu zerar a mana? Eu apago? Isso significaria que usar minha própria mana já é um risco por si só.

Espera.

Quando o Kirihara usou o Dragonic Buster, ele falou algo sobre o nível da habilidade aumentar… então a gente pode upar, tipo em jogo mesmo.

— Se eu conseguir subir de nível o suficiente, talvez dê… — Meu máximo de mana podia aumentar, ou o custo das habilidades podia diminuir.

Mas como um Classe E, eu provavelmente cresceria bem devagar. Foi o que a Deusa disse, pelo menos. Heróis Classe S como o Kirihara subiam de nível bem mais rápido. Ele ganhou EXP suficiente pra upar a habilidade única depois de só um uso, mas eu usei a minha três vezes e nem saí do lugar.

Então é essa a diferença entre um Classe E e um Classe S, hein? Mas em jogos, geralmente só se ganha experiência matando monstros…

Olhei de novo pras minhas habilidades.

— Veneno, hein? — Era a única que parecia causar algum dano.

Ou talvez os outros heróis tenham deixado armas pra trás que eu possa usar? Se eu achasse uma espada ou algo assim, podia matar os monstros paralisados com ela.

Como uma pessoa comum, meus status já não eram grande coisa, e meus modificadores de Classe E eram claramente péssimos. Mas se eu achasse uma arma decente, talvez tivesse uma chance. Eu precisava torcer pra que os outros heróis tivessem recebido armas também, do mesmo jeito que a Deusa me deu aquela bolsinha vagabunda.

Estiquei o pescoço pra fora do esconderijo e olhei de volta pra cabeça de pássaro.

— Será que essa parada de paralisar dura muito tempo? Melhor eu voltar e verificar. — Eu ia conseguir uma informação importante assim. Se o monstro ainda estivesse paralisado quando eu chegasse, significaria que o feitiço tinha uma duração bem longa. Isso tornaria viável ficar ali com uma arma e cortar o bicho até ele morrer.

Mas se eu voltar e o monstro não estiver mais lá…

— Eu resolvo isso quando chegar lá.

Eu podia ver uma pequena luz no fim do túnel — comecei a caminhar em direção a ela.

Assuma o risco. Só esteja preparado para o pior.

Talvez isso tenha sido uma má ideia. Talvez fosse mais inteligente continuar tentando subir até a superfície, mas... eu queria saber. Saí correndo desesperado no momento em que percebi que a paralisia tinha feito efeito, então nem sabia direito quanto teria que voltar. Talvez estivesse escondido na escuridão, só esperando uma chance de atacar.

Meus olhos estavam começando a se acostumar com o escuro, e consegui ver formas vagas na escuridão. Ali, no chão—

—Um machado?

Será que algum herói do passado deixou isso aqui?

Tinha passado tão rápido que devo ter corrido direto por ele sem perceber. Peguei o machado — parecia pesado nas minhas mãos.

Será que ainda está afiado?

Ainda tinha um ponto de MP no meu modificador de status. Pensei em usá-lo na bolsinha de couro para iluminá-la e checar os status do machado, mas... não, ainda não. As veias laranjas bizarras da cabeça-de-pássaro brilhavam o bastante pra eu enxergar quando me aproximasse.

Segurei o machado com uma mão e continuei andando. Meu peito doía. Minha garganta estava seca.

Aquela coisa ainda tá por aí em algum lugar no escuro...

Finalmente, avistei um leve brilho alaranjado. À medida que me aproximava, percebi que ainda estava paralisada, exatamente onde a deixei.

A não ser que esteja fingindo... tentando me atrair.

—Bwa-aa-aak!

Claramente ainda queria me matar. Eu tinha feito alguma coisa com ela, e agora não conseguia se mover — parecia ao menos entender isso. Aquele ácido grosso ainda escorria dos buracos no seu corpo.

Então a paralisia não interrompe todas as funções do corpo, hein. Se funcionasse assim, seria basicamente uma morte instantânea... Hã? O que é aquilo? Uma barra?

Tinha uma barra amarela pairando logo acima da cabeça da criatura, exatamente como num videogame. Se essa barra amarela indicava a duração do efeito, como eu imaginei, ela já estava pela metade.

Me afastei do monstro, peguei uma pedra do chão e a arremessei com força nas costas dele.

Klunk!

Acertou, mas não foi o som que você esperaria de uma pedra batendo em pele... a pele dele devia ser bem dura, no mínimo. Me escondi e espreitei de novo para ver — felizmente, ainda estava imóvel. Já joguei RPGs no meu mundo onde o efeito de status era cancelado quando o personagem levava dano, mas aqui não parecia ser assim. Eu podia fazer o que quisesse com o inimigo até a barra esvaziar.

—Isso! — sem nem perceber, fiz um pequeno gesto de vitória com o punho.

Saí do meu esconderijo e examinei o machado à luz alaranjada da criatura. Parecia em bom estado, sem lascas nem nada.

—Toma essa, cabeça-de-pássaro!

Levantei o machado acima da cabeça com as duas mãos. Pensei em começar pelos membros — desci o golpe com força, como um lenhador, em um dos braços da criatura.

Klank!

O impacto gerou uma onda de choque pelos meus braços — uma dor surda e pesada veio logo em seguida quando deixei o machado cair dos meus dedos. A criatura continuava exatamente igual.

Não adianta. É resistente demais.

Tentando recuperar o fôlego, olhei para baixo, onde o machado tinha caído. A lâmina agora tinha uma rachadura enorme.

—Ah...

Antes que eu pudesse me abaixar para pegá-lo, vi que ele tinha caído numa poça do ácido da cabeça-de-pássaro — a lâmina já estava começando a derreter, o ácido corroendo o metal bem mais rápido do que tinha feito com o chão de pedra. A arma agora era completamente inútil pra mim.

—O que eu faço agora? Será que esse bicho pode ser derrotado mesmo...?

E se eu enfiar uma lâmina em um daqueles buracos? Não... ia derreter também.

Só tem uma coisa que me vem à cabeça que pode funcionar.

Eu teria que usar minha própria mana — a mana que eu nem consigo ver — pra lançar Veneno na cabeça-de-pássaro. Fui me aproximando devagar e levantei o braço. Alvo adquirido.

—Haaah...

Respira fundo. Fica calmo.

—V-veneno...

O corpo inteiro do monstro pareceu borrar, depois ficou roxo. Uma espuma roxa translúcida começou a se formar na pele da criatura, como bolhas de sabão que estouravam e se dissipavam no ar.

Então esse é o efeito do veneno... Eu consegui. Funcionou. Tirando aquele ataque falhado na Deusa imunda, minha taxa de acerto tá em 100%.

A paralisia havia deixado a cabeça-de-pássaro presa numa posição estranha, meio erguida. A barra amarela tinha diminuído mais, mas não houve nenhuma outra mudança — achei que uma barra roxa fosse aparecer ao lado da amarela.

“...”

Tive sorte de novo — lançar veneno em um monstro poderia ter cancelado a paralisia, mas felizmente, os efeitos se acumularam.

Beleza, combo completo. O famoso paralisia-e-veneno. Eu consigo...!

Foi empolgante.

Agora é só esperar. Esperar... e rezar. E se o monstro morrer com o dano do veneno, talvez eu até suba de nível.

Só me restava torcer pra que ele realmente morresse com o veneno — já joguei jogos onde o veneno não podia dar o golpe final, só deixava o inimigo com 1 de HP e você tinha que acabar com ele na pancada.

Que tipo de dano é o veneno, afinal? É um valor fixo, ou escala com a força do monstro? Causa uma quantia fixa a cada rodada, ou um percentual da vida do inimigo? Isso pode afetar muito o quão útil ele vai ser...

—Bwaaak... Bwaak... Bwah... — os gritos da criatura iam ficando cada vez mais fracos.

Então é um valor fixo de dano ou um percentual?

Pode ser uma quantia absurdamente alta de dano fixo.

Seja qual fosse o tipo de dano, o monstro claramente estava enfraquecendo. O suor escorria da minha testa enquanto um sorriso maníaco se formava no meu rosto, uma mistura de alegria e esperança.

—Talvez eu consiga matá-los.

Cada último monstro.

Me sentei de pernas cruzadas no chão e esperei a criatura morrer. A barra amarela da medição foi diminuindo cada vez mais enquanto a cabeça-de-pássaro enfraquecia com os efeitos do veneno. Mantive os olhos fixos naquela barra, sabendo que, no momento em que acabasse, a paralisia se desfaria.

Preciso aplicar de novo antes que acabe...

Empilha de novo antes que acabe...

Empilha de novo antes que acabe...

Eu repetia isso pra mim mesmo várias vezes, como se fossem palavras mágicas de verdade.

—Falando em magia…

Tava tão focado pensando em veneno e paralisia que tinha até esquecido da minha mana. Abri minha tela de status.

MP: +0/33

Meu modificador de mana tinha sido gasto.

O que será que acontece se eu continuar usando minhas habilidades…?

Tontura, cabeça leve, depois desmaiar—isso acontecia direto nos mangás quando um personagem usava energia mental demais.

Tenho que evitar isso a qualquer custo. Ficar inconsciente num lugar desses seria uma sentença de morte.

Olhei direto pros olhos esbugalhados da cabeça-de-pássaro.

—Ei, não olha pra mim desse jeito. Você tentou me matar, lembra? E ainda consigo sentir o quanto você quer me estraçalhar.

Você tentou me matar. Eu tô tentando te matar. É só sobrevivência.

Bem feito.

Morra.

Morra.

Morra.

Eu conseguia sentir o tempo na escuridão me mudando—me enlouquecendo. Esse lugar tava corroendo minha compaixão e razão.

Matar é errado. Eu sei disso... mas se eu não matar essa coisa, ela vai me matar. Tenho que matar pra continuar vivo. Assassinato sem sentido é maldade, eu sei... mas isso é diferente. Tenho um bom motivo pra tirar uma vida aqui. Sobrevivência do mais forte.

Matar ou morrer.

Mas... o que eu quero dizer com “aqui”? Essas ruínas? Esse mundo?

Balancei a cabeça. Quem é que liga pra filosofia numa hora dessas? Só precisava focar em uma coisa—garantir que o monstro na minha frente morresse.

“…”

Esperei por um bom tempo, observando em silêncio e rezando pra essa criatura morrer logo.

Isso aqui vai acabar mexendo com a minha cabeça…

Me levantei, peguei uma pedra afiada do chão e tentei esmagar o olho do pássaro com ela. Não deu certo. O olho era coberto por uma camada fina e dura de muco.

O tempo passou. A barra tava quase vazia.

A paralisia tá pra acabar... Hora de usar de novo.

—Paralisar.

Erro: Habilidade duplicada — não é possível aplicar duas vezes.

—Hã...?

Não acumula?

Ah... provavelmente só funciona de novo depois que o primeiro efeito acabar. Vou ter que usar outro Paralisar assim que o primeiro sumir.

É... é melhor eu ser rápido. Essa coisa pode me atacar assim que conseguir se mexer.

Levantei o braço.

Quase... lá...

A barra amarela desapareceu.

—Bwaaaaak!

—Paralisar!

O monstro começou a girar os braços, testando sua nova liberdade.

—Não... funcionou?

Não é possível...

—Não…

Será que fiquei sem mana?

Erro: Habilidade duplicada — não é possível aplicar no mesmo alvo duas vezes.

Não, não é isso! Eu não posso paralisar o mesmo alvo duas vezes! Mesmo depois que o efeito some, não dá pra aplicar de novo.

Dei um passo pra trás. O monstro deu um passo pesado na minha direção. As bolhas de veneno roxo ainda estavam ativas—isso dava pra ver—mas a situação era crítica.

Paralisar não vai mais funcionar… E agora? Espera… calma. Eu tenho outra habilidade.

—D-d-dormir!

—B-bwak?

O monstro cambaleou pra trás, os olhos se fechando na hora. Seu corpo preto e pesado balançou e caiu com um estrondo.

—Funcionou…? Dessa vez, apareceu uma barra azul acima da cabeça do monstro. Usar uma habilidade diferente ainda era possível, pelo menos.

O suor escorria pelo meu rosto enquanto eu puxava o ar com dificuldade.

Eu consigo.

Se eu alternar entre dormir e paralisar, posso manter o combo funcionando enquanto minha mana aguentar.

Beleza, agora preciso ver se dá pra colocar paralisia de novo antes que o efeito de dormir acabe. O veneno ainda tá funcionando—talvez seja um sistema diferente dos outros efeitos de status?

Limpei a testa com as costas da mão. Tava suando muito.

Será que tô suando tanto assim por usar minha própria mana…?

Olhei pro monstro de cabeça de pássaro. Parecia que ele ainda tava enfraquecendo. As bolhas roxas continuavam surgindo e estourando na pele dele.

Paralisar, Veneno e Dormir… Essas três habilidades vão me tirar daqui.

Ainda tava ofegante. Mas depois de um tempo, o som da minha respiração ficou estranho…

—Hã?

Isso não fui eu!

Me virei.

—Grrrgh!

—Aah!

Era o minotauro. A paralisia tinha passado, então ele devia ter vindo me procurar, os olhos dourados estreitados de raiva. O minotauro se aproximava de mim.

Não posso usar a mesma habilidade no mesmo alvo duas vezes seguidas, então…

—D-dormir!

—Graah…?

O minotauro desabou com um baque. Uma barra azul apareceu acima da cabeça dele.

Eu respirava ainda mais pesado, e comecei a sentir tontura.

Isso não é bom. E agora? Uso minha mana pra envenenar esse cara-boi?

—Não tenho muita escolha…

Olhei pro monstro caído de cabeça de touro, meu coração vazio.

Matar o inimigo. Sem compaixão. Não por essa coisa que quase—que barulho é esse?

Passos pesados, e o som de pedra derretendo.

—Você tá de brincadeira comigo.

Ao meu redor, pontinhos dourados e linhas laranjas brilhantes apareceram no escuro.

—Bwaaak! Bwaak! Bwaaa-aaak!

—Grrrraaaagh!

Um coro de sons de minotauros e cabeças-de-pássaro ecoou nos meus ouvidos.

Acho que o minotauro trouxe uns amigos.

—Me dá um tempo… quantas dessas coisas ainda faltam?

O suor escorria pelo meu rosto e encharcava a gola do meu uniforme. Eu sorri, minha mente correndo pra lugares estranhos pra escapar da realidade.

Aquele ácido tá derretendo o chão—será que a ideia é deixar tudo irregular pra dificultar a fuga?

Minotauros na minha frente, cabeças-de-pássaro atrás—tava encurralado. Já tinha usado toda a mana que podia sem me ferrar, e meus status eram patéticos demais pra confiar. Olhei pro teto.

Não é agora que aparece alguém e me salva no último segundo? Um herói superforte que sobreviveu por aqui e vem me resgatar—um guerreiro secreto que vive nessas cavernas.

Claro que não.

Tentei o meu melhor. Fiz tudo o que pude, não fiz? Se isso fosse um mangá, eu seria um daqueles personagens que morrem no prólogo.

Ar.

Classe E.

Herói descartável.

— Espero que você morra de forma patética e vergonhosa, Too-ka Mimori.

Aquela Deusa imunda.

— Q-que diabos…

Me encostei contra a parede de pedra e cerrei os punhos.

Ninguém vai vir me salvar. Ninguém se importa o suficiente com um figurante como eu pra sequer tentar. É por isso que eu tenho que me salvar sozinho. Não dependa de ninguém. Não espere nada de ninguém. Não se apegue a ninguém. O herói que você sonhava que viria te salvar… ele já está aqui. Você tem que se tornar ele.

Vou aniquilar cada um deles.

Figurante? Classe E? Fundo do poço? Beleza, manda ver. Eu vou sobreviver nas piores condições, resistir e crescer como uma erva daninha. Vou apostar tudo nas minhas próprias capacidades. Vou continuar até usar meus status negativos em cada um de vocês ou até minha mana acabar. O que vier primeiro.

Meus olhos se moviam de um lado pro outro. Levantei as duas mãos e mirei nos primeiros monstros da horda.

— P-paralisar!

— Bwaaah—

O primeiro monstro na minha frente parou no mesmo instante.

Paralisia bem-sucedida.

Senti uma tontura, a cabeça leve, mas continuei firme. O suor escorria pelo meu rosto.

— Haah… haah… ha ha ha haa! Vem pra cima!

Dei um sorriso debochado pra horda diante de mim. Era hora da sobrevivência do mais forte.

— Vamos nessa.


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