Capítulo 3: Um Caipira Enfrenta uma Masmorra
— Ah, Mestre Beryl. Olá.
— Oi, Ficelle.
Certo dia, eu estava a caminho do salão de treinamento da ordem, pronto para me dedicar aos treinos como de costume. Ao passar pelo escritório da ordem, dei de cara com uma integrante do corpo mágico.
— Carregando umas tralhas bem doidas aí, hein? — comentei.
— Aah, isso? É uma entrega pra ordem — explicou Ficelle.
— Uma entrega?
Ficelle vestia o mesmo manto de sempre, mas carregava umas bolsas bem grandes nas mãos e outra nas costas. Dava pra ver que eram todas bem pesadas.
— Poções — ela esclareceu. — O corpo mágico vende elas pra ordem no atacado.
— Hmm, poções, é?
Ficelle soltou um suspiro e largou a bagagem das mãos. Prestando atenção, deu pra ouvir o som de vidro tilintando, indicando que havia garrafas dentro. Poções eram um tipo de medicamento amplamente usado pra curar ferimentos. Tomar uma dessas aumentava temporariamente a capacidade natural de cura do corpo, e também podiam ser aplicadas direto em ferimentos graves.
— Como são entregues pelo corpo mágico, então... são poções mágicas? — perguntei.
— Isso mesmo. Mas algumas são normais, feitas de plantas.
Existiam vários tipos de poções. De forma geral, algumas eram preparadas a partir de plantas medicinais, outras levavam plantas mas passavam por tratamento mágico, e por fim, havia um grupo seleto totalmente refinado com magia. Quanto mais magia envolvida, mais forte o efeito — e mais alto o preço.
Lá em Beaden, só se encontrava poções feitas de plantas. Poções mágicas refinadas eram muito valiosas. Eu já tinha ouvido falar delas, mas nunca tinha visto uma de perto. Até um herbalista de vila podia fazer poções com ervas medicinais, mas as que envolviam magia... aí já era outro papo — era preciso ter aptidão mágica, o que deixava a oferta limitada. E, naturalmente, quanto mais raras, mais caras.
Como eu trabalhava como instrutor de esgrima, devia muito às poções. Arranhões e cortes leves eram rotina, e ter uma poção ou não ter fazia toda a diferença na hora de se recuperar.
— Ah, é mesmo — falei, lembrando de algo de repente. — Conheci uma tal de Lucy outro dia.
Falando no corpo mágico, tinha aquela tal de Lucy que veio brigar comigo do nada. No fim, não entendi direito se ela era mesmo a comandante. Que ela era uma maga, isso era certo. De qualquer forma, a Ficelle provavelmente saberia algo sobre ela.
— Comandante Lucy? — perguntou.
— Aaah, então ela é mesmo sua comandante.
— Uhum.
Então não era mentira que Lucy era a comandante do corpo mágico. Nesse caso, o que me deixava encucado agora era a aparência e o jeito dela. Ela parecia uma garotinha de dez anos, mas pela aura que ela carregava e pela magia que usava, era difícil acreditar que fosse tão nova assim. Se fosse mais velha que eu, como dizia, devia estar pelos quarenta... no mínimo. De qualquer ângulo que se olhasse, o exterior não batia com o interior, no caso dela.
— Ela disse que é mais velha que eu — acrescentei. — Será que é verdade?
— Aaah, sobre i—
— A Lucy usa magia pra manter a aparência — interrompeu outra voz, cortando a Ficelle.
— Oh, olá, Allusia — cumprimentei.
— Olá. E Ficelle, obrigada pelo esforço.
— Isso... faz parte do meu trabalho — respondeu Ficelle.
Aparentemente, Allusia tinha ouvido parte da conversa e resolveu se juntar. Estranhamente, Ficelle encolheu um pouco os ombros. Ficou até fofa daquele jeito.
— Usar magia pra manter a aparência? — perguntei. — Isso é meio insano.
— É sim — concordou Allusia. — Ela é comandante do corpo mágico desde antes de eu virar comandante dos cavaleiros. Desde então, nunca mudou. Pelo menos fisicamente. É um baita mistério.
Aparentemente, Lucy era mesmo da minha idade ou mais velha. Hmm. Acho que com magia vale tudo, né? Eu mesmo não tinha talento nenhum pra isso, então já tinha desistido de aprender, mas confesso que senti uma pontinha de inveja. Tanto a magia de espada da Ficelle quanto a... "rejuvenescimento"? "Manutenção"? Enfim, essas coisas mostravam bem como a magia era vasta. Parecia bom demais.
— Enfim, como você conheceu a Lucy, Mestre? — perguntou Allusia. — Foi até o instituto mágico?
— Aah, sobre isso...
Eu não queria sair espalhando por aí, mas achei que tudo bem contar pra Allusia e Ficelle. Expliquei rapidamente meu encontro com a Lucy e aquele teste repentino de habilidades, meio frustrado enquanto falava. Os olhos de Allusia se arregalaram conforme eu contava, enquanto Ficelle abaixava a cabeça, envergonhada.
— Isso... realmente soa como a Lucy — disse Allusia.
— Quer dizer que ela é sempre assim? — perguntei.
Allusia assentiu.
— Sempre. Ela adora testar a própria magia...
Meus ombros caíram. Era surpreendente que Lucy conseguisse ser comandante do corpo mágico agindo daquele jeito. Talvez, no dia a dia, ela segurasse esse lado impulsivo. Mas na hora que lutou comigo, parecia que não conseguiu se conter.
— Desculpa, Mestre Beryl — disse Ficelle. — Foi porque eu falei sobre você pra ela...
— Não se preocupe — respondi. — Não tem nada pra você se desculpar. Se tem alguém errado nisso tudo, é claramente a Lucy. Mas o que exatamente você falou pra ela?
Lucy tinha comentado que ouviu sobre minhas habilidades com a Ficelle, então era certo que ela tinha sido a informante. Ainda assim, não dava pra culpar a garota — a Lucy que foi atrás por causa da própria expectativa. Mesmo assim, fiquei meio desconfiado... Como será que a Ficelle me descreveu?
— Isso é segredo... — murmurou Ficelle.
— E-Eu entendo...
Se ela ia manter a boca fechada sobre o assunto, então não havia muito mais que eu pudesse perguntar. Eu não tinha nenhuma técnica pra forçar a verdade dela. O segredo de uma donzela precisava ser mantido acima de tudo. Não que eu realmente entendesse esse conceito...
— A propósito, o que você tá fazendo aqui fora, Allusia? — perguntei. Aquilo era o escritório da ordem, e sinceramente não havia motivo pro comandante dos cavaleiros sair durante o expediente.
— Tenho algo pra discutir com a Lysandra — ela respondeu.
— Com a Selna?
Por algum motivo, isso tinha a ver com minha outra ex-aluna. Mesmo um aventureiro de rank negro não podia simplesmente entrar no escritório da ordem, então eu presumi que tinham combinado de se encontrar do lado de fora.
E enquanto conversávamos, uma mulher ruiva conhecida vinha caminhando pela rua na nossa direção.
— Sitrus, desculpa te fazer esperar... Oh, você também tá aqui, Mestre?
— Lysandra, o que você quer? — perguntou Allusia, com amargura. — Eu não tô exatamente com tempo livre.
— Não se apressa — retrucou Selna. — Além disso, o Mestre Beryl estar aqui é perfeito.
Talvez por hábito, Selna afastou o cabelo ruivo e deu uma bronca na Allusia. Peraí, ela tem assunto comigo também? O que será?
— Nesse caso, vou levar essas poções pra dentro — disse Ficelle.
— Aaah, cuidado — falei.
— Uhum.
Ela tinha interrompido uma entrega de trabalho, então voltou ao que estava fazendo. Bom, a pausa inesperada foi culpa minha — fui eu que puxei conversa.
— E então? O que você quer? — perguntou Allusia de novo.
Agora estávamos só eu, Allusia e Selna ali fora. Como sempre, era uma formação desequilibrada, mas por estarmos bem na frente do escritório da ordem, não precisava me preocupar com curiosos. A atenção que essas duas atraíam era bem difícil de suportar.
— Na verdade, a guilda dos aventureiros quer pedir emprestado o Mestre Beryl — explicou Selna. — Tô aqui pra pedir permissão. Também tenho uma carta do mestre da guilda.
— Por quê?
Sério, por quê? Minha reclamação foi levada pelo vento.
Allusia bufou, olhando pra carta.
— Tch. Parece que não é falsa.
— Óbvio. Falsificação é crime sério — retrucou Selna.
Eu não fazia ideia se a carta era verdadeira, mas de acordo com Allusia, era. E, será que foi só impressão minha ou ouvi um estalo de língua que seria bem inapropriado vindo da comandante dos cavaleiros? Hm... Deve ter sido minha imaginação. A Allusia não faria isso. Com certeza não.
— E aí? O que tá escrito? — perguntei, curioso.
Eu até podia ler por conta própria, mas não queria espiar sem pedir. Segundo Allusia e Selna, era uma carta endereçada à Ordem de Liberion, vinda da guilda dos aventureiros. Provavelmente não era pra meus olhos.
Eu já tinha me estabelecido como instrutor especial da ordem, mas minha posição era bem complicada. Não é como se eu tivesse comando ou autoridade. No máximo, estava ali pra ajudar os cavaleiros no treinamento, então não era meu lugar me meter nos assuntos internos ou no uso da força.
Obviamente, eu agora era afiliado à Ordem de Liberion, então era a comandante dos cavaleiros quem decidia como eu seria utilizado. O tenente-comandante deles, Henbrits, provavelmente também tinha essa autoridade. Era um mistério o porquê do mestre da guilda querer me “pegar emprestado”, mas se fosse verdade, a decisão final seria da Allusia. Não tinha como a guilda tomar essa decisão por conta própria.
— Diz que querem te pegar emprestado pra ajudar a treinar alguns aventureiros novos e jovens — explicou Allusia. — A ordem não tem muito motivo pra recusar, mas também não temos razão pra aceitar.
— Ensinar novatos, hein?
Isso me deixou interessado, mas como a Allusia disse, a ordem não tinha motivo pra liberar seu instrutor assim do nada. Além disso, habilidades de sobrevivência e coisas do tipo não eram mais importantes pra aventureiros iniciantes do que habilidades com espada? Eu meio que sentia que o que eu ensinaria entraria em conflito com o que eles realmente precisavam. E, além de tudo, era estranho o mestre da guilda, que eu nem conhecia, pedir pra me emprestar pelo nome. Eu nem tinha envolvimento com a guilda.
— Não me diga... — murmurei. — Selna?
— Claro — respondeu ela. — Fui eu que fiz a recomendação.
— Não me vem com esse “claro”...
Corta esse sorrisinho vitorioso. Já tenho que aturar esse tipo de coisa da Allusia o tempo todo. O que é que eu vou ensinar pra um bando de aventureiros, afinal? Isso é muito absurdo.
— Sitrus, você não acha que isso pode ser uma boa oportunidade pra aprofundar a relação entre a guilda dos aventureiros e a Ordem de Liberion? — disse Selna. — Eu não acho que seja uma má ideia.
— Entendo. É uma forma de ver a coisa — a expressão da Allusia mudou de ex-aluna para comandante dos cavaleiros. Provavelmente estava analisando o que a ordem poderia ganhar como organização ao me enviar.
— Ainda assim, não sei exatamente com o que vocês querem ajuda — falei para Selna.
— Naturalmente, se você não quiser ir, eu recuso imediatamente — disse Allusia.
Lancei um olhar de canto pra ela.
— Não precisa ficar tão ansiosa assim.
Pessoalmente, eu tava um pouco curioso. Tinha vindo de longe pra morar em Baltrain, então uma parte de mim queria se envolver. Mas, sendo honesto, ensinar aventureiros novatos era completamente diferente de ensinar esgrima num dojo. Eu não fazia a menor ideia do que eles esperavam de mim.
E, como eu seria emprestado temporariamente pra guilda, não era como se fosse ensinar de forma contínua. Eu não curtia muito cursos rápidos ou treinamentos improvisados. Quando começava a ensinar alguém, queria poder dar um treinamento de verdade, com consistência. Mas, pelo tom desse pedido, isso não parecia ser o caso.
— O que exatamente vou fazer? — perguntei.
—O principal vai ser acompanhar um grupo em um ataque a uma masmorra — respondeu Selna. — Você vai verificar se eles realmente adquiriram as habilidades de combate necessárias pra sobreviver e, no pior dos casos, dar suporte na linha de frente.
—Um ataque a uma masmorra, hein?
Minha expressão ficou automaticamente sombria — eu tinha uma lembrança bem ruim disso. Há muito tempo, num momento de pura imprudência juvenil, eu saí de Beaden por conta própria numa expedição. Era bem novo na época, e no fim, acabei levando uma surra dos monstros locais e fui forçado a voltar pra casa. Ainda me surpreende eu não ter morrido naquela vez.
Um ataque a masmorra era exatamente o que o nome sugeria: forçar caminho por ruínas, labirintos, cavernas ou qualquer coisa parecida. O continente de Galea tinha masmorras de todos os tipos. Algumas eram ruínas de civilizações perdidas, outras estavam sob influência de poderes mágicos, e outras ainda eram só cavernas onde monstros faziam ninho. Vinham em todos os formatos e tamanhos, mas eram todas classificadas como masmorras.
Ou seja, um ataque a uma masmorra era basicamente o sonho de qualquer aspirante a aventureiro. Partes de monstros podiam ser vendidas por um bom dinheiro, e havia a expectativa de encontrar grandes tesouros em ruínas inexploradas. Se o ataque fosse bem-sucedido, era possível conseguir riqueza e fama — do tipo que muda sua vida inteira de uma vez só.
Mas claro, ataques a masmorras eram perigosíssimos. Não era incomum morrer pra um monstro ou cair numa armadilha antiga e só esperar pelo fim. Se você subestimasse a própria capacidade ou a periculosidade da masmorra, o resultado podia ser a morte certa.
—Você tem certeza disso? — perguntei. — Aventureiros novatos e inexperientes seriam de rank branco ou bronze... no máximo, prata, né?
—Isso não vai ser um problema — disse Selna. — A masmorra tá sob jurisdição da guilda e já foi investigada. Os monstros de lá também já foram identificados. Não deve haver problemas, contanto que tenham um líder adequado junto.
—Tenho quase certeza de que eu não me encaixo nesse “líder adequado” aí...
Por que a Allusia e a Selna têm uma opinião tão exagerada de mim?
—Dado o seu nível de força, não vai ter problema nenhum... Hmph.
—Não, pode ter problema sim, e vários.
Eu sou só um velho sem graça. Já ia ser um sufoco me defender, quanto mais proteger novato em ataque de masmorra. Estavam colocando a barra alta demais. Hmm... talvez o melhor seja recusar. Se fosse só pra ensinar os aventureiros, eu topava de boa, mas não dava pra assumir responsabilidade pela vida de outras pessoas. Se eu fosse mais forte, até aceitaria sem pensar duas vezes.
—Selna, desculpa, mas isso parece meio demais—
—Oooh, então era aqui que você estava.
Justo quando eu ia recusar, alguém me interrompeu.
—Olá, Lucy — disse Allusia. — É raro te ver por aqui.
Lucy, a comandante do corpo mágico em pessoa, tinha acabado de aparecer. — Mm — ela respondeu com um aceno. — Então, eu tenho um assunto pra tratar com o mestre da guilda dos aventureiros.
—Um assunto com o mestre da guilda? Tem a ver com isso aqui? — perguntou Selna, mostrando a carta.
—Hm...? — Lucy encarou o papel por um momento e depois fez um aceno enorme. — Oooh, sim, com certeza. Exatamente isso.
Deixando a conversa de lado, essas três figuras poderosas começaram a conversar como se fosse a coisa mais natural do mundo. Suponho que a comandante dos cavaleiros, a comandante do corpo mágico e a aventureira de mais alto nível já tivessem tido várias oportunidades de se conhecer.
—A sua recomendação envolvia um nome conhecido, então eu também fiz questão de colocar a minha —explicou Lucy.
—O quê?
Lucyyy!
—Então o Mestre Beryl foi recomendado pela mestra da guilda, por uma aventureira de patente negra e até pela comandante do corpo mágico... —murmurou Allusia. —Nesse caso, a ordem realmente não tem como se recusar a ceder nosso instrutor.
—Hã? Espera aí... —protestei. Calma lá. Aguenta firme, Allusia. Luta até o fim! Minha vida e a dos novatos está em jogo aqui!
—Está decidido —declarou Selna. —Vamos tomar emprestado o Mestre Beryl por um tempo.
—Muito bem —concordou Allusia. —Vou explicar tudo aos cavaleiros.
Ah, fala sério, não tem nada de “muito bem” nisso. Apesar de ser o maior interessado nisso tudo, eu não tive voz nenhuma na decisão. Foi tudo resolvido sem mim.
Tanto faz! Façam o que quiserem...
◇
Fui do escritório da ordem até a guilda dos aventureiros. Estávamos em três: eu, Selna e, por algum motivo, Lucy.
Você tem tanto tempo livre assim, Lucy? Não é você a comandante do corpo mágico?
—Sou muito grata por contar com sua cooperação, Mestre —sussurrou Selna, visivelmente feliz. Selna sempre passou uma imagem meio masculinizada (o que não tirava em nada da beleza dela), então eu nunca imaginaria ver uma expressão como aquela em seu rosto. Se Kewlny era um cachorrinho alegre, Selna era um cão de caça treinado. Embora, na real, Selna fosse tudo menos dócil.
Soltei uma risada fraca. —Ha... Ha ha ha... Você diz isso, mas não sei até onde alguém como eu pode realmente ajudar.
—Ei, já pensou que talvez esteja sendo humilde demais? —perguntou Lucy, direta.
—Nem um pouco —respondi. —Tenho uma boa noção do que consigo fazer.
Nem sabia o que dizer sobre isso. Minhas habilidades com a espada eram decentes, mas fisicamente eu não era nada demais —só um pouco mais forte que a média. Só consegui derrotar o subcomandante da Ordem de Liberion porque meu estilo tinha vantagem natural sobre o dele. Contra a Lucy, no entanto, a luta terminou num empate que, pra ser honesto, foi quase uma derrota. Pensando bem, era difícil me chamar de “forte”.
—Bem, essa é uma das virtudes do Mestre Beryl —disse Selna.
—Ah, deixa pra lá... —resmunguei. —Vamos deixar assim mesmo.
Lucy olhou para Selna e deu uma risadinha. —Hee hee hee. Lysandra, você parece bem apegada a ele.
Como sempre, Selna estava cegamente devotada a mim. Mas eu simplesmente não conseguia me acostumar com alguém do nível dela —uma aventureira de patente negra que viajou o mundo— me elogiando como se eu fosse um prodígio. Selna era muito superior a mim em status e habilidade. Por favor, para com isso. Esse velho só quer viver em paz.
Ah, e com Selna e Lucy me acompanhando, todo mundo ficava me encarando de novo. Era agoniante. Talvez eu já devesse estar acostumado, mas ainda me sentia completamente deslocado. Felizmente, a guilda dos aventureiros ficava logo ali perto do escritório da ordem, então chegamos rapidinho, conversando pelo caminho. Selna caminhava como se fosse da casa, e Lucy e eu a seguíamos. Sério, por que a Lucy ainda estava aqui? O corpo mágico não tinha nada mais importante pra fazer?
Selna foi direto até o balcão de recepção.
—Sou eu. O mestre da guilda está?
—Sim, só um momento.
A recepcionista foi imediatamente para os fundos. Parece que isso era rotina por aqui. Pouco depois, um senhor de cabelos brancos apareceu —acompanhado de um homem alto de óculos, que parecia seu assistente.
—Hm-hmm, deixei vocês esperando? —perguntou o senhor.
—Mestre da guilda, trouxe o Sr. Beryl Gardinant —disse Selna.
É melhor começar com uma apresentação. —Ah, sim, eu sou Beryl Gardinant. Um prazer conhecê-lo.
—E eu também tô aqui! —acrescentou Lucy. Pra falar a verdade, eu não me importaria se ela simplesmente fosse embora.
—O prazer é meu —disse o velho. —Sou o responsável pelo ramo de Liberis da guilda dos aventureiros. Meu nome é Nidus. O homem ao meu lado é meu assistente, Meigen.
—Olá, sou Meigen.
Cumprimentei os dois com apertos de mão leves. Nidus parecia ter mais ou menos a idade do meu pai. Os cabelos e a barba eram completamente brancos, e ele tinha rugas profundas. Tinha um jeito calmo de falar, mas a postura firme indicava que ainda se exercitava ou que, no mínimo, o fez por muito tempo. Como mestre da guilda, fazia sentido se ele tivesse sido um aventureiro no passado.
Ao contrário da postura tranquila de Nidus, Meigen me lançou um olhar claramente desconfiado logo após as apresentações. Parecia um pouco mais jovem que eu. Tinha o cabelo índigo penteado pra trás com perfeição, e mesmo com os óculos, dava pra ver o brilho afiado nos olhos dele. Aquilo me lembrou da primeira vez que encontrei Henbrits.
Bom, mesmo com a recomendação da Selna, era natural que as pessoas ficassem desconfiadas de um velho caipira que apareceu do nada. Ainda mais sendo trazido pra ajudar a treinar novos aventureiros. Fazia sentido que alguém da guilda ficasse extremamente cauteloso com um estranho. Pra ele, confiar a vida de membros da guilda a um completo desconhecido era coisa séria —Meigen estava me avaliando pra ver se eu era digno de tamanha responsabilidade. Pessoalmente, achei a postura dele perfeitamente compreensível.
—Com a recomendação da Twin Dragonblade Lysandra e também da comandante do corpo mágico, não me cabe contestar —disse Nidus. —Nossos jovens estarão aos seus cuidados.
—C-Certo...
Não, é aí que você deveria contestar! Fala alguma coisa, pô! Isso só tá me deixando mais ansioso.
—Por favor, aguardem um momento —interrompeu Meigen, com frieza.
—O que houve? —perguntou Nidus.
Meigen suspirou. —Ter recomendações dessas duas, de fato, é notável... mas nós da guilda dos aventureiros não sabemos nada sobre a força do Sr. Gardinant. Confiar as vidas de aventureiros promissores a alguém cuja reputação é apenas baseada em boatos é algo um tanto preocupante.
Ele foi direto ao ponto. Isso aí, Meigen! Continua assim!
—Seu desgraçado —cuspiu Selna. —Está dizendo que não confia no meu mestre?
Lucy semicerrava os olhos. —Hmm? A minha palavra não é o bastante pra você, Meigen?
A atitude de Selna mudou completamente — Meigen despertou a ira dela na hora. Lucy também começou a exalar uma aura tensa.
Corta isso! Eu não pedi por esse clima tenso!
—Não foi isso que eu quis dizer —respondeu Meigen, mantendo a calma apesar da pressão dessas mulheres intensas. —Eu só gostaria que demonstrassem, de forma fácil de entender, que o senhor Gardinant possui as qualificações necessárias.
Seus olhos afiados se cravaram em mim. Mas isso não foi o bastante pra me fazer vacilar. O que eu via naquele olhar não era hostilidade, mas sim uma preocupação genuína com os aventureiros.
—Hm. Então, Meigen, o que você gostaria que fizéssemos? —perguntou Nidus, com naturalidade, sem se abalar com a situação.
À primeira vista, esses dois pareciam opostos, mas provavelmente se davam muito bem na administração da guilda — cada um trazia uma perspectiva diferente e chegavam juntos a decisões equilibradas.
—Pelo que ouvi —continuou Meigen—, o senhor Gardinant é mestre da Lâmina Gêmea, Lysandra. Se os dois tiverem um duelo, poderemos avaliar bem suas habilidades.
—O quê?!
Um som esquisito escapou da minha garganta. Sério mesmo? Eu duvidava muito que tivesse alguma chance contra uma aventureira de rank negro. Quer dizer, até que era uma boa forma de medir minha capacidade... mas depois de me colocarem num pedestal tão alto, eu já estava sentindo culpa pela queda inevitável.
—Ooh, ótima ideia —disse Lucy. —Também quero ver isso.
Não embarca nessa também!
—Se é disso que precisam, não me oponho —concordou Selna. —Não poderia pedir por nada melhor do que um duelo com o Mestre Beryl. Vou dar tudo de mim.
Para com isso. Pega leve. Cê vai matar esse velho aqui.
—Entendo. Serve pra você também, senhor Gardinant? —perguntou Nidus.
—Sim... —respondi fracamente. —Entendido. A essa altura, eu realmente não tinha como recusar. E Selna ainda estava super empolgada com isso.
Droga... Como é que isso chegou nesse ponto?
Nidus, Meigen, Selna, Lucy e eu. Nós cinco fomos até o campo de treinamento ao lado da guilda dos aventureiros.
—Ei, pessoal! A Lysandra vai ter uma luta!
—Sério? Contra aquele velhote? Quem é ele?
—Sei lá... Não parece aventureiro...
O local inteiro ficou em alvoroço. Totalmente compreensível. Não era exagero dizer que um aventureiro de rank negro era a inveja de todos, então se um deles ia lutar, todo mundo queria ver. Teria sido bem mais empolgante se ela não estivesse enfrentando esse velhote aqui, né?
Primeiro Henbrits, depois Lucy, agora Meigen... Bom, Meigen nem parecia um combatente, mas ainda assim. Senti como se minhas habilidades estivessem sendo testadas sem parar desde que cheguei em Baltrain. Apesar da aparência, Lucy era uma figurona também. Pra ser sincero, achei que a capital fosse um lugar mais racional. Mas, diferente de Beaden, aqui eu não podia contar com meu nome pra atestar minha habilidade — pelo menos isso eu entendia.
—Este é o campo de treinamento da guilda —disse Nidus. —Acredito que o espaço seja suficiente.
Assenti com a cabeça. —É... parece bom...
—Tee hee hee! Que empolgante! Que empolgante!
Droga, Lucy! Para de agir como se isso não fosse culpa sua! Não tem problema se eu der um soco de leve nela, né? Não vou ser atingido por um raio, né?
Depois disso, tudo correu tranquilamente — eu já estava preparado pro duelo com a Selna. Diferente do salão da ordem, o campo da guilda era ao ar livre. E era bem grande também. Dando uma olhada ao redor, havia bonecos de treino de madeira espalhados aqui e ali, e vários aventureiros circulando por ali.
Como era um lugar de treino, a maioria parecia ser de novatos. Dava pra ver pelas placas brancas ou de bronze que usavam. Faz sentido — quem já era um aventureiro experiente não precisava ficar vindo até aqui bater em boneco de madeira. Devem estar aprimorando as habilidades no campo e cumprindo missões de verdade.
—Hmm.
Selna estava como sempre. Provavelmente já estava acostumada a ser encarada desse jeito. Já eu... tinha passado bastante tempo sendo encarado no dojô, mas ainda não me acostumei com tanta gente me observando numa luta. Dar aulas na Ordem de Liberion ainda era algo bem novo pra mim, e essa era, obviamente, minha primeira vez cercado por aventureiros. Estava começando a ficar um pouco nervoso.
—Pois bem, Mestre. Vamos ter uma boa luta.
—É. Vai com calma comigo.
Selna e eu nos posicionamos bem no centro do campo. Sério, vai com calma. Não tô brincando. Selna me fez uma reverência limpa. Era a mesma etiqueta que eu havia ensinado a ela no dojô, quando ainda era criança. Aquilo aqueceu meu coração — era bom ver que ela ainda lembrava.
Empunhei uma espada de madeira do tamanho de uma longsword, enquanto Selna usava duas lâminas mais curtas e finas. Afinal, ela praticava o estilo de espadas gêmeas. A diferença de armas influenciava muito no jeito de lutar.
Agora, como é que se luta contra alguém que usa duas espadas? Bom, isso aqui era só um duelo — eu não estava aqui pra vencer. E também seria falta de respeito com a Selna se eu deixasse a mente vagar assim.
Certo! Concentra! Concentra!
—Lá vou eu!
—Guh!
Selna deu o sinal de início da batalha. Soltou um grito curto e sumiu da minha vista completamente.
Se agachou? Avanço rápido pela direita. Postura alta, as duas espadas? Não, uma é falsa. Golpe no torso, bloqueia, corte vertical, desvia, chute de contenção — recua, depois avança de novo. Estocada dupla, desvia, abre pra um corte, bloqueia, estoca de novo, torce, giro e corte, bloqueia!
—Haaaah!
—Hngh...! Guh!
Ooooh! Ela é rápida pra caramba! Tá se movendo numa velocidade absurda! Meu cérebro não tá conseguindo acompanhar! O ataque feroz dela não me deu nem um segundo pra respirar, e eu não tive tempo nem de pensar em contra-atacar. Não era hora de ficar pensando no que fazer depois, porque tava usando tudo o que eu tinha só pra desviar quase que no reflexo. Caramba! A Selna é forte demais! Bom, ela é rank preto, né... Então não tinha como ser fraca mesmo!
Simplificando, usar duas espadas significava ter o dobro de possibilidades de movimento. Naturalmente, se um amador simplesmente empunhasse duas espadas, o estilo duplo não serviria pra nada, e ele não seria uma ameaça. Mas a Selna era diferente. Os movimentos dela aproveitavam o melhor das duas armas. Às vezes delicados, às vezes ousados, ela girava, executando uma dança louca com as duas espadas.
Desse jeito, eu não ia conseguir fazer nada. Ia só ser engolido pela tempestade incessante de golpes dela. Eu nem esperava uma vitória fácil, mas, poxa... Eu sou instrutor de esgrima! Ia ser meio patético perder desse jeito sem nem tentar. Espera! Não! Agora não é hora de se preocupar em parecer patético! Uoou?! Essa foi por pouco! Ela quase me acertou!
— Hahahahaha! Esse é o Beryl que eu conheço!
— Tudo isso e nem um arranhão...? Inacreditável...
— Ele desviou de tudo isso?! Quem é esse velhote, afinal?!
Droga, tô ouvindo os comentários da plateia. Isso é prova de que não tô concentrado o bastante.
Concentra! Concentra, droga! Se eu perder o foco por um instante, já era!
Golpe ascendente, golpe vertical, corte no torso, rasteira, golpe diagonal, varrida, chute, golpe saltando, rasteira de novo, golpe giratório, estocada dupla!
A onda de ataques dela continuava sem parar. Quantos segundos tinham se passado? As coisas estavam tão aceleradas que perdi a noção do tempo.
— Hahahaha! — rugiu Selna. — Isso tá muito divertido, Mestre!
— Que bom pra você! Uoah?!
Senti a madeira da espada da Selna roçar de leve minha bochecha. Foi por muito pouco. Uns centímetros a mais e minha cabeça teria voado pra trás. A expressão da Selna era a definição de estar se divertindo—parecia em transe de tão eufórica. O brilho nos olhos dela tava ainda mais intenso que o normal, e o canto da boca claramente se curvava num sorriso.
Bom, se a Selna tava se divertindo, então essa luta não era em vão. Mas eu, sinceramente, não tava me sentindo assim—tava ocupado demais desviando como se minha vida dependesse disso. Ela realmente ficou forte pra caramba. Deu pra ver o quanto ela se dedicou à própria arte.
— Heh... Hehehe... Eu não consigo te acertar! Não consigo de jeito nenhum, Mestre! Você é incrível!
— Valeu pelo— Gah! Elogio!
As espadas de madeira vieram de ambos os lados. Rebati uma e avancei naquela direção pra desviar da outra. Era praticamente um milagre eu estar desviando de todos os ataques dela sem levar um golpe decisivo. Ela já tinha me arranhado várias vezes. O suor escorria pela minha testa, chegando até o canto da visão. Nem tinha tempo de piscar pra limpar. Parecia que cada segundo tava sendo esticado ao máximo. Meus braços já estavam começando a doer. Mesmo acostumado a empunhar uma espada de madeira, ela tava incrivelmente pesada agora. Muito provavelmente, eu não conseguiria manter esse equilíbrio misterioso por muito tempo, e acabaria sendo vencido. Tava quase certo disso.
Ainda assim, teve uma coisa que percebi nesse breve embate: pelo que notei, a Selna era boa com as duas mãos, mas fazia surpreendentemente poucos movimentos com a esquerda. Se eu tivesse que chutar, diria que ela não era totalmente ambidestra. Quando ensinei ela a usar a espada, lá na infância, ela era destra.
Claro, a destreza dela era mais que suficiente, então ela lutava sem problema nenhum. Na verdade, dava até pra dizer que ela já tinha aperfeiçoado a técnica. O que eu notei mal podia ser chamado de abertura—era tipo um rasgo minúsculo na costura. Mas, se eu fosse agir, essa era a única chance.
Eu já tinha esgotado meus nervos ao máximo me defendendo, e agora, esperava pelo golpe vindo do braço esquerdo dela.
— Haaah!
— Shah!
Nossos gritos se misturaram. Um golpe diagonal com a mão esquerda veio na minha direção. Era agora. Minha única opção era atacar de volta. Preparei minha espada de madeira e interceptei o golpe, então girei a ponta. Esse era o truquezinho que o Tenente-Comandante Henbrits tinha caído um tempo atrás. Ao desviar a força do golpe para o lado, forcei minha oponente a perder o equilíbrio.
A Selna era rápida demais, então tive que concentrar todos os meus sentidos nesse único golpe. Naturalmente, esse truque não seria o bastante pra enganar uma mestra do nível dela. Pra ela, deveria ser fácil reajustar o centro de gravidade e acompanhar meu movimento. Mas, essa fração de segundo era tudo que eu precisava.
— Guh!
Os olhos da Selna se arregalaram por um instante quando viu meu movimento, mas ela logo reajustou os pés e recuperou o equilíbrio. Foi impressionante, mas isso me deu um instante. E, nesse único instante, eu fui mais rápido que ela.
— Ah!
— Um ponto, eu acho.
As duas espadas da Selna pararam no ar. Minha espada de madeira tremia bem na altura da garganta dela.
— Muito... obrigada — disse ela, reconhecendo a derrota.
— Mm. Obrigado pela luta.
Mesmo que eu tivesse parado o golpe antes, esse acerto decidia a luta, então encerramos por aqui. Nos curvamos um para o outro e fomos caminhando até Nidus e os outros.
— Oooooh! Incrível!
— O quê?! O quê?! O que foi aquilo?!
— Que loucura! Acabei de ver algo surreal!
De repente, o campo de treinamento, que já tava meio barulhento, foi tomado por um alvoroço explosivo. Bom, o choque da galera fazia sentido. A sequência de ataques da Selna tinha sido insana. O rank mais alto dos aventureiros realmente era outro nível. Tenho certeza de que foi um baita espetáculo, e talvez até tenha servido de lição pros jovens aventureiros.
Tudo o que eu tinha feito foi me esforçar desesperadamente pra conseguir acertar um único golpe. O tempo todo, só aguentei firme — então provavelmente acabei parecendo bem patético.
Aquele rápido confronto me deixou encharcado de suor. Eu estava exausto. A Selna também estava suando, mas ela não parecia nem de longe tão cansada quanto eu. Se aquilo tivesse continuado, com certeza eu teria sido dominado. Era praticamente impossível pra uma pessoa comum aguentar aquele bombardeio pra sempre.
— Ufa... Não esperava menos de você, Selna — falei.
— Não, o senhor foi maravilhoso, Mestre — ela respondeu. — Eu não achei que conseguiria bloquear tudo aquilo...
Fomos caminhando de volta até os outros enquanto trocávamos umas palavras sobre o duelo.
— De qualquer forma, você ainda não dominou totalmente o uso da mão esquerda, né? — perguntei.
— Então você percebeu... Acho que ainda preciso treinar muito até ela chegar no nível da minha mão dominante.
Eu já não estava mais numa posição de ensiná-la, mas não me importava em ajudá-la a alcançar alturas ainda maiores.
— Heh heh heh, dando conselhos pra alguém do rank preto agora? — disse a Lucy com um sorrisão. — Tá se achando, hein?
O Nidus parecia surpreso, mas também sorriu pra gente. Já o Meigen... ficou lá parado de boca aberta.
— E então, ainda tem alguma reclamação? — perguntou Selna, cruzando os braços e lançando um olhar afiado pro Meigen.
— E aí? Tem mesmo? — provocou Lucy, vitoriosa.
Vai pra casa, Lucy.
— N-Não... — Meigen cedeu, finalmente voltando ao normal. — Foi uma exibição esplêndida de habilidade. Senhor Gardinant — por favor, me perdoe por ter duvidado do senhor. — Ele fez uma reverência profunda.
— Não tem necessidade disso — falei, meio sem jeito. — Suas dúvidas eram justificáveis. Pode levantar a cabeça.
Não tinha por que ele se desculpar — ele não tinha demonstrado nenhuma hostilidade real comigo. Só estava agindo com a preocupação natural que um administrador da guilda teria pelos seus subordinados. É realmente complicado quando aparece um tiozão do nada falando “Vou ensinar seus novatos!”. Nesse ponto, a postura dele fazia total sentido. O que eu não entendia direito era como é que ele acabou me aprovando. No fim das contas, tudo o que eu fiz foi aguentar o furacão chamado Selna.
— Ho ho ho, então está decidido — disse Nidus. — Nossos jovens ficarão sob seus cuidados.
— Pode deixar comigo... — Bom, acho que não tem mais como escapar dessa, né? Mesmo querendo muito...
— Agora é um bom momento — continuou Nidus. — Vamos te apresentar aos que você vai acompanhar. Meigen, chame-os até aqui.
— Sim, imediatamente.
Pelo visto, a reunião com os novos aventureiros ia rolar agora. Bom, já que esse era o campo de treinamento deles, não era estranho estarem por perto. E como eu ia acompanhar essa turma, era melhor pelo menos saber os nomes e rostos deles. Tinha muito mais aventureiros do que cavaleiros por aí, então sair procurando sem saber quem era quem ia ser uma tarefa e tanto.
Quando o Meigen se afastou, o Nidus se virou pra mim e falou em voz baixa:
— Me desculpe por ele. É muito talentoso, mas também teimoso.
— Aah, tranquilo. Não se preocupe com isso.
Repetindo: os receios dele faziam sentido, então eu não tinha nada a reclamar. Na real, eu até preferia que o resto do pessoal tivesse um pouco mais de preocupação com o fardo pesado que estavam me dando. Mas é claro que não iam.
Resolvi puxar assunto pra passar o tempo:
— Selna. Todos os aventureiros trabalham sozinhos como você?
Agora que parei pra pensar, eu sabia tanto sobre aventureiros quanto sabia sobre cavaleiros. Queria pelo menos aprender o básico.
— Não. A maioria trabalha em grupos de três a seis pessoas — ela respondeu. — Quando o grupo é grande demais, começam as discordâncias sobre coordenação e divisão dos lucros, então geralmente não passam disso. Eu costumo agir sozinha, mas às vezes monto um time também.
As palavras da Selna saíram com tanta naturalidade que ela parecia até professora.
Então, no fim das contas, aventureiros trabalham em equipe. Faz sentido — tem um limite pro que um só consegue fazer, e é sempre melhor ter mais amigos do que menos. A vida de aventureiro é perigosa, afinal.
— Beryl, me chama se algum dia for explorar uma masmorra — disse a Lucy. — Eu vou ajudar também.
— Tenho quase certeza de que isso nunca vai acontecer — respondi, recusando na hora.
— Por quê?!
Ela realmente achava que eu, logo eu, ia ficar empolgado pra sair desbravando masmorra? Eu não tava atrás de riqueza ou fama nem nada disso. Só queria uma vida tranquila ensinando esgrima. E falando sério, Lucy... por que você ainda tá aqui? Vai pra casa.
— Você cuida da frente e eu protejo a retaguarda, certo? Acho que a gente formaria uma boa dupla... — murmurou Lucy.
— Não nego, mas meu corpo não ia aguentar esse ritmo.
Como ela mesma disse, espadachins tinham uma péssima sinergia contra magos, mas por isso mesmo eles se completavam bem em grupo. Ainda assim, a chance de a gente formar dupla era zero...
Um tempo depois, o Meigen voltou trazendo três jovens.
— Desculpe a demora — disse ele.
Dando uma olhada casual, dava pra ver que eles estavam nervosos. Bom, devia ser raro um novato ter a chance de conversar com alguém do rank preto logo no começo da carreira. Era natural estarem tensos.
— Por favor, se apresentem — pediu Meigen.
— S-Sim! — os três responderam num sobressalto.
— E-Eu sou a Porta! Espadachim!
— N-Needry... Eu também... uso espada...
— E-Eu sou... Sarlikatz...
Caramba, estavam tremendo mesmo. Será que iam dar conta na investida à masmorra? Já comecei a ficar preocupado. Eram dois homens e uma mulher. Pelas plaquinhas, a Porta e o Needry eram do rank bronze, enquanto a Sarlikatz era prata. Mas nesse nível, isso não fazia tanta diferença.
— Eu sou Beryl Gardinant. Prazer em conhecer vocês.
—Selna Lysandra. Desta vez, Mas— digo, o Sr. Beryl Gardinant e eu vamos supervisionar a sua equipe. Aliás, vocês têm um rastreador dedicado? Ou esse é o grupo completo?
Rastreador? Nunca nem ouvi essa palavra antes.
—Ah... Sou eu... —disse Sarlikatz, levantando a mão timidamente.
—Essa equipe começou como uma dupla, a Porta e o Needry —explicou Meigen. —Depois recrutaram o Sarlikatz.
Estava começando a entender. Porta e Needry pareciam amigos de infância. Julgando pela aparência, os três estavam naquela idade em que é difícil dizer se são adolescentes ou adultos. Sarlikatz parecia um pouco mais velho, no entanto. Era complicado adivinhar a idade de gente nova só de olhar, mas como eu já tinha lidado com muitas crianças no dojo, conseguia estimar razoavelmente bem.
—Desculpa, Selna. O que exatamente é um rastreador? —perguntei, querendo tirar logo essa dúvida. Já que eu ia supervisionar, ficar ignorante sobre coisas de aventureiros não era uma boa.
—Rastreadores são responsáveis por seguir rastros de monstros, encontrar armadilhas e, às vezes, desarmá-las —explicou Selna. —Alguns grupos não têm um, mas muitos contam com um rastreador dedicado.
—Entendi. Então o Sarlikatz é a chave dessa equipe?
Ao ouvir isso, Sarlikatz se encolheu e começou a tremer. Desculpa! Não tô te ameaçando! Me perdoa aí.
—E então, Meigen, onde vai ser o ataque à masmorra? —perguntou Selna.
—Vejamos... É uma masmorra na parte sul da Floresta de Azlaymia.
—Ah, lá. É um lugar ideal pra novatos.
Selna e Meigen começaram a tocar a conversa adiante agora que as apresentações tinham acabado. Da minha parte, não havia muito o que dizer, então só fiquei ali escutando. Será que eu era mesmo necessário nisso tudo? Sinceramente, parecia que podiam muito bem ter me deixado de fora.
A Floresta de Azlaymia ficava a sudeste de Baltrain. Era uma região arborizada com muitas feras selvagens e monstros, mas nada muito grande ou perigoso já tinha sido encontrado lá. Eu nunca tinha ido, então não sabia muito bem como era. No geral, parecia não ser um lugar tão arriscado assim.
—Então, amanhã de manhã vocês se encontram no ponto de carruagens do distrito central —continuou Meigen.
—Hm, tudo bem —disse Selna. —Funciona pra você, Mestre?
—Sim, tá ótimo —respondi meio atrapalhado, já que de repente a conversa veio na minha direção. Opa. Por um instante virei só um figurante...
—E-Estamos ansiosos pra trabalhar com você! —exclamou Porta, todo animado.
—Sim, igualmente —respondi pra ele.
Eles ainda deviam ser inexperientes, mas pareciam boas pessoas no fundo. Acabei lembrando dos alunos que deixei pra trás no dojo. Será que o Randrid estava indo bem? Queria poder dar uma passada lá algum dia pra ver, mas meu velho com certeza ia me expulsar de novo...
Ops, lá vai minha cabeça de novo, viajando. Já que a região não era tão perigosa, provavelmente ia dar tudo certo, mesmo com a minha presença. Como o mais velho aqui, eu só precisava garantir que os jovens não se metessem em nenhuma encrenca inesperada.
◇
—O-Oi, pessoal. Desculpem o atraso.
Na manhã seguinte, tomei meu café da manhã habitual na estalagem e fui até o ponto de carruagens no distrito central. Todos que eu deveria encontrar — Selna, Porta, Needry e Sarlikatz — já estavam lá. Começamos com o pé esquerdo. Será que foi erro meu seguir a rotina de sempre e tomar café primeiro?
—B-Bom dia, Sr. Gardinant!
—B-Bom... d-dia...
Porta me cumprimentou com energia e Needry com nervosismo. Sarlikatz também parecia tenso, só fez uma leve reverência. Fiquei de olho no jeito de cada um. Esse tiozinho aqui já teve bastante experiência lidando com garotos, afinal.
—Então vamos indo —disse Selna. —Todos nós vamos de carruagem.
—Beleza.
Subimos todos na carruagem que já tinham preparado pra gente. Nas viagens entre Beaden, quem cobria os custos era a Ordem de Liberion. Desta vez, o responsável era o próprio sindicato dos aventureiros. A maioria das masmorras ficava bem longe, então não dava pra simplesmente sair andando da cidade até elas. E no caso de excursões de treinamento e missões oficiais, o sindicato costumava bancar os gastos com transporte. A Ordem e o sindicato realmente tinham bolsos fundos. Um tratamento desses seria impensável lá em Beaden.
Depois que todos embarcaram, Sarlikatz assumiu as rédeas e pôs os cavalos em movimento. A paisagem começou a passar lentamente enquanto a carruagem avançava pela estrada pavimentada.
—Hmm. Então um aventureiro dirigindo a carruagem, hein? —comentei.
—Aventureiros costumam viajar longas distâncias —explicou Selna. —Saber lidar com um cavalo é uma habilidade básica.
—A gente vai de carruagem até a Floresta de Azlaymia inteira?
—Sim. Não dá pra entrar com a carruagem na floresta, então vamos parar perto e seguir a pé.
Como sempre, era a Selna quem respondia tudo. Ela realmente parecia saber o que estava fazendo. Provavelmente não era a primeira vez dela acompanhando novatos numa excursão de treino. Dito isso, uma pergunta óbvia surgiu na minha cabeça. Por que se deram ao trabalho de me chamar pra isso? Bom, na verdade, essa dúvida já existia desde o começo. Sinceramente, parecia que a Selna dava conta de cuidar dos três com facilidade. Só o fato de eu ter sido indicado pro sindicato já era um mistério por si só, mas mesmo sem isso... Será que realmente precisava de dois supervisores aqui? Eu tava confuso com isso o tempo todo.
Então, decidi perguntar logo de uma vez:
—A propósito, existe alguma regra que diga que são necessários múltiplos supervisores nesse tipo de treinamento?
Diferente de todas as minhas outras perguntas, Selna hesitou por alguns segundos antes de responder em um sussurro tão baixo que ninguém mais pôde ouvir. — Normalmente, as regras dizem que dois aventureiros de patente platina — ou um de patente oceânica ou superior — devem acompanhar.
— Hmm. Então eu sou realmente desnecessário? — Não vejo por que precisam de mim, então...
— O senhor não ouviu os rumores, mestre? — continuou Selna, ainda em voz baixa, enquanto a carruagem chacoalhava sobre as pedras da estrada. — Ultimamente, os monstros estão se comportando de maneira estranha.
— Essa é nova pra mim... Como assim “estranha”? — Como eu ia saber disso? Quer dizer, se isso fosse um problema, não seria trabalho da guilda dos aventureiros ou da ordem lidar com isso? Não parecia o momento ideal pra arrastarem um velhote entediante pra confusão.
— Existem relatos de testemunhas oculares sobre monstros grandes aparecendo em regiões onde normalmente não deveriam estar — Selna prosseguiu. — A guilda já enviou investigadores, mas... ainda não identificaram a causa.
— Hmm... Ótimo.
Selna, isso não é bem ruim? Eu não era exatamente um expert na ecologia de monstros ou de feras selvagens, mas passei boa parte da vida como camponês. Conhecia o básico. Assim como os humanos, monstros tinham áreas bem definidas onde viviam — dava pra chamar isso de território. Não era algo tão bem demarcado quanto fronteiras nacionais, mas mesmo assim, a menos que algo significativo acontecesse, eles permaneciam em suas próprias regiões. Se monstros de um território — seja um exemplar ou um grupo inteiro — estavam se movendo pra outro lugar, significava que algo estava acontecendo por lá. Pelo menos, era isso que se esperava. Mas a guilda ainda não sabia o motivo. Isso era, no mínimo, preocupante. Eu só esperava que nada bizarro acontecesse nessa viagem.
— Diante disso, para cobrir eventos inesperados em excursões de treinamento como essa, mais pessoal está sendo enviado para supervisionar — acrescentou Selna. — Isso naturalmente leva a uma escassez de aventureiros de alto nível disponíveis, então pensei em pedir sua ajuda.
— Entendi... Agora faz sentido. Obrigado.
A situação fazia sentido agora, mas ainda não entendia por que tinham me escolhido. Isso não era o tipo de coisa que deveriam coordenar com a Ordem de Liberion e o corpo mágico? Toda essa situação só levantava mais perguntas.
— A Allusia... a ordem sabe sobre esse problema? — perguntei.
Se os monstros estavam agindo de forma estranha, a nação também não podia simplesmente ignorar. Sendo assim, a ordem e o corpo mágico já deveriam ter sido informados.
— Acredito que a informação já tenha sido repassada. Sitrus deve estar a par...
— Hmm...
Bem, se Allusia sabia, então não era problema. O motivo de eu não ter sido informado provavelmente era porque não me contavam entre as forças que ela podia mobilizar. No máximo, eu era um instrutor, não um combatente da linha de frente. E sinceramente, nem queria lutar. Só queria evitar ser um fardo e atrapalhar todo mundo.
Enquanto ouvia o som ritmado das rodas, a carruagem saiu da cidade. Baltrain era praticamente uma fortaleza com enormes muralhas ao seu redor. Erradicar completamente os monstros a ponto de extinção era algo praticamente impossível, então era comum fortificar assentamentos assim contra ataques. Mas as muralhas ao redor da capital estavam em outro nível. Lá no interior, Beaden basicamente só tinha cercas.
Depois de passarmos pelas muralhas, a paisagem não era muito diferente da estrada fora de Beaden. A esfera de influência humana era maior perto de Baltrain, mas uma vez fora dela, tudo era meio parecido. A carruagem seguiu dos caminhos pavimentados da capital para as estradas de terra batida do interior.
Apesar das fronteiras nacionais já estarem estabelecidas, havia surpreendentemente pouco território onde os humanos podiam viver em segurança. Naturalmente, a humanidade fazia o melhor possível, mas nem todo cidadão era capaz de lutar. Território sob jurisdição era diferente de território sob controle real. Nesse sentido, a guilda dos aventureiros tinha jurisdição sobre a Floresta de Azlaymia, mas definitivamente não eram os donos daquele lugar.
Territórios sob domínio humano viravam vilas, depois cidades, e então formavam países. E como ainda havia muito território sendo colonizado pelo mundo afora, eu conseguia ganhar a vida fazendo o que fazia. Ironia das boas.
— O mundo em paz é o ideal, mesmo — murmurei.
— Viajar por um mundo sem perigos... Esse realmente é um sonho — concordou Selna.
Enquanto seguíamos viagem rumo à masmorra na Floresta de Azlaymia, aproveitamos o tempo em uma tranquilidade absoluta.
◇
Depois de viajar de carruagem, passar uma noite acampando ao relento e seguir por mais algumas horas na manhã seguinte, finalmente chegamos à borda da Floresta de Azlaymia. Com a vasta mata se estendendo à nossa frente, descemos da carruagem e caminhamos mais uns trinta minutos.
— Chegamos...
— Hmm. Parece o lugar certo.
Uma pequena colina se erguia diante de nós, e na encosta dela havia a entrada de uma caverna. Era meio caidinha, então chamar aquilo de “masmorra” era até generoso. Ainda assim, era o ideal para treinar jovens aventureiros novatos — outras masmorras e ruínas continham monstros cruéis e armadilhas de morte instantânea. A ideia de explorar esse tipo de lugar não me atraía nem um pouco... mas só de pensar nesse perigo, dava pra entender que ser aventureiro era uma profissão onde se arriscava a vida em troca de fama.
— Ontem foi bem agradável — comentei casualmente. — Vocês já estão bem acostumados com esse tipo de viagem.
— N-Não foi nada! Nem menciona isso! — respondeu Porta, encolhendo-se todo.
Aventuriers sempre precisavam acampar do lado de fora. Sinceramente? Parece puxado. Mas isso fazia parte do estilo de vida — os trabalhos geralmente eram longe demais, então ir e voltar de uma masmorra no mesmo dia era quase impossível. Aliás, a preparação da viagem costumava ficar por conta dos novatos, pra que ganhassem experiência, então a Selna não participou. Ninguém me pediu nada também, então eu nem me envolvi. Agora que penso bem, mesmo essa masmorra sendo relativamente perto da cidade, sair numa expedição sem conhecimento de campo é bem perigoso. Me desculpem por ser tão ignorante.
Ah, e se os novos aventureiros não tivessem conseguido montar um acampamento decente, a gente teria dado meia-volta na hora e voltado pra Baltrain. Pelo visto, quem não consegue estimar bem o tempo de viagem nem planejar direito os suprimentos e paradas, não tá pronto pra ser aventureiro. Nesse ponto, essa equipe passou no teste. Selna não comentou nada sobre o desempenho deles, e a gente passou a noite acampando sem problemas.
— Então... vou me preparar...
A gente se reuniu em frente à caverna. Quem falou foi o batedor do grupo, o Sarlikatz. Depois de dar uma espiada rápida lá dentro, ele colocou a mão sobre a pulseira no pulso esquerdo. Uma luz fraca começou a brilhar, e de repente me ocorreu uma coisa.
— Isso é um equipamento mágico, talvez? — perguntei.
— A-ah... é sim... — ele respondeu meio tímido.
De cara, ele parecia ser do tipo difícil de conversar, mas eu sabia lidar com jovens assim — era só não forçar demais nem recuar demais. Agir naturalmente já era suficiente pra engatar uma conversa. Sabedoria de velho, sabe? Não que isso seja algo pra se gabar...
— Pode me explicar o que ela faz? — perguntei.
— A-ah, claro... — Sarlikatz assentiu, depois se posicionou no meio do grupo e ergueu um pouco o braço esquerdo. — Uhm... ela brilha quando tem formas de vida por perto. Agora somos cinco, contando comigo... mas se mais alguém se aproximar, ela vai brilhar mais forte...
— Entendi... Bem útil pra um batedor, hein?
Sarlikatz fez o melhor que pôde pra explicar, mesmo que de um jeito meio travado. Basicamente, a pulseira era um detector. Se houvesse qualquer forma de vida — tipo humanos ou monstros — por perto, ela brilharia cada vez mais conforme se aproximassem. Desde que ele soubesse qual era o brilho-base com os cinco de nós por perto, dava pra perceber se algo mais estivesse se aproximando e se preparar... pelo menos até certo ponto.
A luz da pulseira também era bem fraquinha, então dificilmente chamaria atenção — nossas tochas no escuro eram bem mais visíveis. Equipamento mágico era realmente prático. Não parecia que eu teria chance de usar um, mas comecei a querer um também. Agora entendo por que a Ficelle é tão fissurada em colecionar essas coisas.
— T-tá bom! Vamos nessa! — gritou a Porta, cheia de energia. — Sarlikatz! Estamos contando com você!
— C-certo... L-lá vou eu...
Com esse sinal, o grupo entrou na caverna. Sarlikatz foi na frente, seguido pela Porta e pelo Needry. Selna e eu ficamos mais atrás. Pensando bem, a Selna não falou nada desde que a gente entrou na Floresta Azlaymia. Provavelmente, ela tava ali só como supervisora, então não ia dar nenhuma dica. E parecia que os três novatos sabiam disso, já que nem tentaram puxar assunto com ela — provavelmente tinham sido instruídos a não depender dos supervisores. Hmm, nesse caso, eu também não devia ter puxado papo com o Sarlikatz. Foi mal. Este velho aqui vai refletir sobre isso.
Então, sem muita conversa, nosso grupo de cinco seguiu em frente. O ar da caverna era frio e úmido. Um cheirinho estranho pairava no ambiente, misturado com aquele odor típico de lugar fechado.
— Lá estão eles... — murmurei.
— Parece que sim — sussurrou Selna de volta. — Bem, se eles não estivessem aqui, tudo isso seria inútil.
Ela tinha razão. A gente tava ali pra ver as habilidades de combate do grupo iniciante, afinal.
— Que tipo de monstros estamos esperando? — perguntei.
Imagino que os novatos já deviam ter sido informados dos alvos antes do exercício. Caso contrário, nem conseguiriam montar um plano. Por isso, achei tranquilo puxar o assunto.
— Principalmente goblins — respondeu Selna. — E também morcegos grandes e vermes de caverna. Coisa suficiente pra testá-los.
— Entendi.
Eram nomes bem familiares. Goblins eram o esterótipo dos monstros pequenos que viviam em florestas e cavernas. Cada goblin sozinho não era tão forte, mas costumavam atacar em bando. Se o grupo não soubesse lidar com muitos inimigos de uma vez, iam passar sufoco. Era o tipo de inimigo perfeito pra treino.
Morcegos grandes e vermes de caverna eram exatamente o que o nome dizia — morcegos e vermes anormalmente grandes. Não tinham habilidades especiais, e lidar com eles era como caçar uma presa comum numa caçada. Não faz muito tempo, eu caçava esses bichos direto lá em Beaden, então foi até nostálgico.
Caramba, ainda bem que eu sei lidar com esse tipo de monstro. Mas não dava pra baixar a guarda. O importante aqui não era eu vencer, e sim salvar os jovens se parecesse que iam perder.
— Achei eles... — avisou Sarlikatz, lá na frente do grupo. — Mais pro fundo... Provavelmente muitos!
— C-certo! Needry...!
— S-sim!
Porta e Needry estavam visivelmente tensos. Os dois empunhavam espadas curtas padrão, e já as tinham desembainhado, prontos pra lutar. Sarlikatz também puxou o punhal da cintura.
Vozes estranhas ecoavam das profundezas da caverna. Aqueles sons com certeza não eram humanos... No fim do corredor escuro, a origem do barulho começou a tomar forma. A criatura era esquisita e tinha mais ou menos metade do tamanho de uma criança. Também não parecia particularmente forte. Em uma disputa de força bruta, qualquer adulto ganharia fácil. Mas, diferente de um humano, ela tinha pele verde em tom monstruoso, presas que se projetavam para fora da boca e olhos reptilianos. Essas características impediam qualquer um de tratá-la como uma criança humana. Aquela criatura, o arquétipo de todos os pequenos monstros, era um goblin.
— Mestre, acredito que já saiba disso, mas... — Selna sussurrou.
Assenti com a cabeça.
— Mm. Vamos ver do que os novatos são feitos.
Eu entendia bem. Não fazia sentido eu cortar os goblins sozinho.
— São... seis!
— Três contra seis...! Vamos nessa, vocês dois!
— S-Sim!
Os três jovens se encheram de coragem e encararam os monstros. Dentro daquela caverna isolada, as cortinas se abriam discretamente para o exercício prático daqueles aspirantes a aventureiros.
— Hyaaah!
— Gah!
A caverna silenciosa sacudiu com os ecos estrondosos. Porta balançou a espada com cuidado para não bater nas paredes e cortou um goblin ao meio com precisão.
— Hmm, um bom golpe.
Falei minha observação sem nem pensar muito. Uma luta desesperada acontecia bem na minha frente, e tudo que eu podia fazer era assistir. Aquilo me deixava inquieto, mas minha função era justamente observar o desempenho do novo grupo, então eu não podia intervir. Sendo assim, decidi focar em analisar o estilo de combate deles.
— Ele tá bem consciente de que tá lutando dentro de uma caverna, não é? — disse Selna.
Pelo visto, ela sentia o mesmo que eu. Eu não fazia ideia do que um rank bronze médio devia conseguir fazer, mas aquele garoto Porta parecia ter um bom instinto. Espadas curtas eram armas bem comuns, assim como espadas longas. O fio de corte determinava a qualidade da lâmina, mas fora isso, não havia muito destaque nelas. O comprimento e o peso padrão dessas armas eram ideais pra vários estilos de combate, permitindo lidar com diferentes tipos de situações, então elas eram usadas tanto por iniciantes quanto por veteranos. Ainda assim, toda arma tinha seus prós e contras. No caso de espadas curtas e longas—na verdade, de qualquer lâmina longa—era preciso ter cuidado ao brandi-las em espaços apertados. Teto e paredes atrapalhavam bastante.
— Ah...!
— Gah... Ghk...
Outro goblin apareceu pelo lado, se aproximando de Porta, mas a adaga de Sarlikatz deu fim à criatura. Em corredores estreitos como aquele, armas de perfuração como adagas ou rapiers eram muito mais práticas do que espadas curtas, longas ou espadas largas. Naturalmente, uma adaga não tinha muito peso e era difícil de usar na defesa. Nesse sentido, Sarlikatz entendia bem as propriedades da própria arma. Ele evitava confrontos diretos e aproveitava apenas as brechas laterais.
— H-Hyaah?!
— Gah! Gyah!
Ops, olha só... Talvez em pânico, Needry girou a espada num arco muito longo, e acabou batendo a lâmina contra a parede da caverna. Vendo nisso uma boa oportunidade, um goblin se preparou pra desferir um golpe com o porrete. Duvidava que um único ataque daquela coisa fosse letal, mas... Era minha deixa pra agir?
— Needry! — gritou Porta. — Sarlikatz, por favor!
— Mm!
Ah, talvez eu não precise me meter... Tendo acabado de derrotar o segundo goblin, Porta percebeu rápido o perigo que Needry enfrentava e chamou Sarlikatz para ajudar. De forma geral, Porta e Needry enfrentavam os goblins na linha de frente, enquanto Sarlikatz se movia entre eles para dar suporte sempre que necessário. Restavam três goblins. Porta lutava com um, Needry com outro. O último observou a situação por um momento e então avançou para ajudar contra Needry. Essa era a hora de Sarlikatz mostrar serviço, já que ele era o mais ágil do grupo. Eu me sentia meio como um pai vendo os filhos crescerem.
— Toma essa...!
— Gyah?!
Um dos goblins levantou a arma para acertar Needry. Talvez por achar que a adaga não seria suficiente para deter o ataque, Sarlikatz resolveu dar uma ombrada na criatura. O impacto repentino pelas costas fez o monstro rolar pelo chão, ainda com o porrete erguido.
— N-Needry...!
— S-Sim...!
Aproveitando a brecha, Needry finalizou o goblin caído com um golpe decisivo. Agora restavam apenas dois. Goblins eram fisicamente inferiores aos humanos, então, tendo perdido a vantagem numérica, a vitória dos novatos estava garantida. Desde que não ficassem convencidos ou distraídos demais, é claro. Mas honestamente, eles não pareciam ser o tipo de grupo que cometeria esse tipo de erro.
— Parece que acabou. O que achou, Selna? — perguntei.
— Um bom desempenho pra bronzes. O Porta, em especial, parece promissor.
— É. Achei que ele se moveu bem também.
Trocamos impressões enquanto observávamos os três lidando com os dois últimos goblins. Depois de ter vacilado antes, Needry agora estava bem focada e atacava o goblin com energia. É, empolgação é sempre bem-vinda.
— T-Terminado... tudo limpo...
Mesmo que a luta não tivesse sido fácil, os três conseguiram derrotar seis goblins sem nenhum ferimento sério. Cumprindo seu papel como batedor, Sarlikatz verificou se todos os goblins estavam realmente mortos, e então anunciou o fim da batalha. No entanto, aquele era só o primeiro encontro do programa de treinamento—o objetivo era limpar toda a masmorra. Bom, aquilo era mais uma caverna comum do que uma masmorra de verdade, mas o que importava era a intenção.
Voltamos a caminhar. Uma pergunta vinha me incomodando fazia um tempo, então resolvi perguntar:
— Ei, Selna, esse lugar é usado com frequência?
Se fosse uma ruína histórica com algum efeito mágico, até que daria pra entender, mas não importa como eu olhasse pra isso... era só uma caverna comum. E se ela já tivesse sido usada antes pra treinar aventureiros, os monstros deviam ter sido exterminados há muito tempo. Mas não era o caso. Então, será que mandaram iniciantes pra uma caverna inexplorada?
— Por causa do ambiente, pequenos monstros voltam a habitar a caverna mesmo depois de serem eliminados — explicou Selna. — Existem outros lugares assim por perto. Usamos todos por turnos, em intervalos regulares, pra treinar os novatos.
— Entendi...
Fazia sentido. Colocando de forma gentil, a Floresta Azlaymia e outras dungeons pequenas estavam sendo usadas como áreas de treinamento. Mesmo conhecendo o número e o tipo dos monstros nesses lugares, a guilda ainda precisava de jurisdição pra utilizá-los repetidamente. Era algo que eu jamais teria percebido vivendo nos cafundós de Beaden. Balançar uma espada numa sala de treino não dava experiência prática pra ninguém, mas também não dava pra jogar pintinhos que mal sabiam o básico da vida de aventureiro direto nas linhas de frente. Isso só aumentaria o número de mortos à toa. Então, a solução que encontraram foi essa: mandar novatos supervisionados pra áreas onde pequenos monstros podiam facilmente fazer ninho. Esse tipo de engenhosidade é bem a cara da guilda dos aventureiros.
Depois da batalha inicial, o grupo foi avançando pela caverna e limpando os monstros pelo caminho. No total, derrotaram doze goblins, quatro morcegos grandes e dois vermes de caverna. Eventualmente chegaram até o fundo da caverna, o que marcava o fim seguro do exercício de treinamento.
— Bom, acho que tudo que resta agora é voltar — falei. — Ainda bem que não precisamos intervir.
— De fato... — concordou Selna. — Isso é motivo de comemoração.
Mesmo não achando que perderia pra um mero goblin, lutar enquanto protegia alguém era bem estressante. Era uma sensação que nunca podia ser simulada numa luta de treino... e que, se possível, eu preferia nunca mais sentir.
Quando virei pra olhar a Selna de novo, percebi que ela parecia pensativa. Na verdade, agora que eu penso bem, ela já estava assim fazia um tempo. Não parecia distraída exatamente, mas dava pra notar que a atenção dela estava dividida.
— Selna? Tá tudo bem? — perguntei.
— É só que... tinham monstros de menos — murmurou, escolhendo as palavras com cuidado. — Esse lugar estava sem uso há um tempo. Tinham poucos goblins na caverna e não fomos atacados nem uma vez depois que entramos na Floresta Azlaymia... Normalmente, devia ter mais monstros e feras selvagens por aqui.
— Hmm...
Ela tinha razão. Numa floresta desse tamanho — e com uma caverna bem encaixada dentro dela — parecia que devia haver bem mais monstros. Bom, eu não sabia por que estavam ausentes, então não adiantava ficar pensando nisso. A única conclusão possível era que, por algum motivo, havia menos monstros dessa vez.
— Srta. Lysandra! Sr. Gardinant! A saída! — gritou Porta.
— Tá bom, tá bom. A gente já vai.
Talvez animado por ter terminado o treino em segurança, Porta apontava energicamente pra saída da caverna. Quando começamos a sair, um vento fresco soprou contra meu rosto. Foi uma sensação ótima depois de tanto tempo naquele lugar úmido. Porta correu pra ser o primeiro a sair e se espreguiçou casualmente. Ainda era meio do dia, então pensei que podíamos fazer uma caminhada tranquila de volta pra—
Pera aí... Por que tá tão escuro lá fora? Meu relógio interno dizia que ainda era cedo demais pro sol ter se posto. E o tempo tava limpo, então mesmo com todas as árvores da floresta, estava escuro demais. O vento também estava levemente estranho. Meus cinco sentidos diziam que algo estava fora do lugar.
Ali! Tem alguma coisa acima de nós!
— Porta! — gritei. — Abaixaaaa! — Saí correndo na direção dele.
Selna se virou pra mim, surpresa com o tom da minha voz. Eu não sabia o que era, mas uma sombra enorme tinha caído sobre a entrada escura da caverna.
De repente, Porta foi lançado pra longe por algo lá fora. Ele sumiu da minha vista em um piscar de olhos.
— Porta! — gritei de novo.
A criatura que vi por um breve instante com certeza não podia ser chamada de "monstro pequeno". A velocidade dela também não era brincadeira. Rezei pra que Porta não estivesse morto.
— Vocês dois, fiquem na caverna! — Selna ordenou para Needry e Sarlikatz. Tendo visto a mesma coisa que eu, ela disparou ao meu lado.
A entrada estava logo ali. Estaríamos do lado de fora em um segundo. Os dois novatos restantes pareciam totalmente perdidos — um chocado e o outro só boquiaberto. Eu também não esperava por isso, viu? Bom, esperar que aventureiros novatos reagissem de forma adequada a uma anomalia extrema era pedir demais.
Normalmente, Sarlikatz deveria ter prestado atenção a qualquer leitura estranha na pulseira, mesmo depois da missão acabar. Mas, depois de chegarem ao fim da caverna, ele provavelmente baixou a guarda. Dá pra entender. Ele podia ser mais velho que Porta e Needry, mas ainda era apenas um rank prata. Ter previsto e se preparado pra uma situação dessas teria sido o mais estranho, na verdade.
— Gh!
Saltando pra fora, em meio à vegetação densa, me deparei com um único monstro gigante à nossa espera. Tinha membros poderosos e asas majestosas — incluindo a cauda, devia ter uns cinco ou seis metros de comprimento. Com essas características, só um monstro vinha à mente.
— Grifo!
Gritei o nome sem pensar. Um grifo era classificado como um monstro voador de grande porte. Não possuía nenhuma habilidade especial, mas sua força e agilidade, combinadas com membros potentes e um bico resistente, já eram mais do que o suficiente pra representar uma ameaça pros humanos.
Aparentemente, eles habitavam principalmente regiões montanhosas — eu nunca tinha ouvido falar de um aparecendo no meio de uma floresta como essa. Além disso, grifos costumavam ter pelos brancos, mas esse era de um vermelho profundo. Pode ser meio rude dizer isso, mas ele me lembrava os cabelos flamejantes da Selna. Nunca tinha ouvido falar de um grifo assim, muito menos visto algo parecido.
— Graaaaaah!
O grifo vermelho abriu a boca e rugiu. Tinha percebido uma nova ameaça... ou talvez uma nova presa. No instante seguinte, o vento envolveu seu corpo e começou a girar ao redor dele.
— Uou?!
Reagi no reflexo ao ataque repentino, interceptando o bico do grifo com minha espada e girando meu corpo para desviar do impacto com o pulso. Caramba, essa foi por pouco! Esse bicho é rápido demais pro tamanho que tem! Se minha espada ainda estivesse embainhada, eu não teria conseguido bloquear. Se aquele golpe tivesse me acertado em cheio, eu teria voado longe — não tive escolha senão aparar o ataque com a ponta da lâmina.
Minhas mãos ficaram dormentes com a dor só por causa de um único ataque de investida. Mesmo que eu aguentasse os próximos, não dava pra saber por quanto tempo meu corpo ou minha arma iriam durar.
— Certo, o Porta...!
Tendo desviado do ataque do grifo, dei uma rápida olhada ao redor. Porta, que tinha sido lançado uns dez metros, estava caído contra uma árvore. Vi que ele se mexia, ainda que levemente. Que bom. Parece que não morreu. Mas se deixarmos ele ali, não sei se vai continuar vivo por muito tempo.
— Mestre! — gritou Selna. — Esse não é um grifo normal! É um monstro nomeado! Zeno Grable!
— Um monstro nomeado?! — gritei de volta, sem tirar os olhos do grifo.
Sério mesmo?! Tenho quase certeza de que isso está muito além do meu nível. Já tinha ouvido rumores sobre esse tipo de monstro antes. Normalmente, monstros só recebem o nome da espécie — goblins são goblins, grifos são grifos. Mas, às vezes, por causa de mutações ou algo assim, aparece um exemplar muito além do padrão da espécie. Geralmente, são mais fortes e maiores que os outros, por isso recebem um nome especial. Ordens de cavaleiros ou a própria guilda dos aventureiros decidem esses nomes, para chamar atenção pro perigo que representam e incentivar sua eliminação.
Resumindo, o monstro diante dos meus olhos era um baita alvo. Merda, queria muito estar em casa agora...
— Grrrr...!
O grifo vermelho — Zeno Grable — rosnou com raiva. Ter falhado em me derrotar com aquele ataque inicial claramente o deixou furioso. Calma aí, não fica assim. Humanos pequenos como eu passam a vida inteira treinando só pra conseguir aguentar uns tapas de monstrão como você. Mas, vou ser sincero, algo desse tamanho tá bem acima do que eu esperava.
— Então é por isso que tinha tão poucos monstros menores por aqui! — disse Selna, sacando suas lâminas duplas.
Fugir seria bem difícil agora. Dava pra ver que o Zeno Grable era mais ágil que a gente, e ainda teríamos que carregar o Porta ferido, o que ia nos atrasar mais ainda. Nessas condições, duvido muito que conseguiríamos escapar.
E ainda por cima, esse também não parecia ser o tipo de inimigo que a gente conseguiria derrubar rapidinho. Pelo tamanho dele, uns cortes não iam ser o suficiente — teríamos que retalhar bastante. Só de olhar já dava pra ver que os pelos e os membros dele eram resistentes. Será que uma espada comum conseguiria ferir de verdade?
Não tínhamos tempo a perder. Do jeito que tava, o Porta ia morrer. Não dava pra contar com o Needry e o Sarlikatz nessa — eles ainda eram novatos — então cabia a mim e à Selna acabar com esse bicho.
Um silêncio estranho tomou conta do lugar. Mantendo minha espada em punho, chamei Selna.
— Você tem alguma poção?
Alguém precisava segurar o Zeno Grable e ganhar tempo pra gente resgatar e tratar o Porta — esse papel teria que ser meu ou da Selna. Assim que ele estivesse seguro, poderíamos decidir se iríamos lutar ou fugir. Provavelmente era o melhor plano que tínhamos.
— Tenho sim — respondeu Selna. — Duas, feitas com magia.
Ótimo. Isso é coisa de rank negro mesmo. Ela trouxe as poções mais potentes disponíveis. A menos que algo muito grave acontecesse, isso seria o bastante pra manter o Porta vivo.
Mantive meus olhos fixos no Zeno Grable — tinha certeza de que ele atacaria no segundo que eu desviasse o olhar. Considerando nossas habilidades, fazia mais sentido ela segurar o bicho enquanto eu buscava o Porta.
Estendi a palma da mão pra Selna.
— Beleza. Então, por favor...
— Ah! Entendido! É com você!
Sabia que ela entenderia. Nem precisei pedir diretamente a poção. Algo acertou minha mão esquerda e um estalo animado ecoou pela Floresta Azlaymia.
Hã? Como é? Um high five?! Cadê a poção?!
— Eu vou salvar o Porta! Mestre, mantenha a atenção do Zeno Grable!
T-Tá erraaaaado! Não é isso! Era o contrário! Quem te pediu pra entrar na luta?! Isso foi uma completa falha de comunicação!
— Graaaaah!
Por algum motivo, o Zeno Grable nem olhou pra Selna quando ela saiu correndo na direção do Porta. Ele focou só em mim, decidindo que eu era seu alvo principal, e se preparou pra outra investida.
— Merda!
Bem diante dos meus olhos, o corpanzil do Zeno Grable veio voando na minha direção.
Investida direta. Garra direita no alto. Rápido. E provavelmente pesado. Se eu me aproximar, vou ser esmagado pelo peso. Desvio pro lado. Contra-ataque com um corte ascendente. Bom golpe, mas... sinto como a pele dele é dura mesmo com minha espada longa.
— Grah!
— Caramba! Ele é mesmo resistente!
Mesmo acertando um bom golpe, parecia que não tinha causado dano real. Não rebateu, mas também não foi além de um arranhão superficial. A essa altura, eu tinha três opções: usar uma espada mais pesada e afiada pra cortar a carne dele, recuar e usar toda minha força num ataque de carga, ou mirar no que eu só podia presumir que fossem seus pontos vitais. De qualquer jeito, ia ser complicado.
— Isso aqui já é demais pra um velho como eu!
Um minuto — essa era minha estimativa otimista do tempo que a Selna levaria pra resgatar o Porta e aplicar o tratamento de emergência. Se fosse qualquer outra pessoa, eu chutaria dois ou três minutos. Então, durante esse único minuto, eu teria que enfrentar o Zeno Grable completamente sozinho.
— Graaaaah!
Depois de falhar em derrubar a presa com um único golpe — ou mesmo dois —, Zeno Grable rugiu em irritação e fúria, se preparando pra atacar de novo. Eu nem fazia ideia de quantos golpes teria que acertar pra derrotá-lo. Infelizmente, bastava um golpe dele pra me mandar pro além. Era literalmente andar na corda bamba.
— Hmph!
Saltei pra trás pra escapar das garras que vinham de lado, e aproveitei pra cortar sua pata dianteira. Mas isso mal arranhou o grifo. Parecia que os membros dele eram ainda mais resistentes que o corpo. Pelo visto, arrancar uma perna pra reduzir a força de combate estava fora de questão...
— Nesse caso, o ponto fraco convencional tem que ser o rosto!
Recuei um pouco e comecei a analisar a situação. Eu ainda estava a poucos metros do Zeno Grable — distância que ele podia cobrir num piscar de olhos. O rosto era minha melhor aposta, especialmente a boca ou os olhos. Pelos cortes anteriores, o resto do corpo era duro demais. As asas também seriam um bom alvo, mas, honestamente, ele era grande demais, então elas geralmente ficavam fora do meu alcance.
— Porta! Reaja!
Olhei rapidamente pro lado e vi que a Selna já tinha chegado até o Porta. Ela puxou uma poção do bolso e despejou tudo sobre ele. A situação estava crítica. Mesmo que a Selna voltasse a lutar, fugir carregando o Porta e guiando os dois novatos seria impossível. Nesse caso, nossa única chance de sobrevivência era derrotar o Zeno Grable ali mesmo... ou, pelo menos, deixá-lo incapacitado.
Droga! Como é que isso foi acontecer? Eu queria mesmo era sair correndo de volta pra capital, chorando pelo caminho, mas não dava. A vida de três jovens aventureiros dependia de mim — se eu os abandonasse pra salvar a própria pele, seria uma vergonha pra todos os espadachins. Eu era só um velho comum, mas não covarde o suficiente pra jogar fora meu orgulho de espadachim por medo. E também não podia dar esse gostinho pra minha ex-aluna.
— Então não tem outro jeito!
Me enchi de coragem e avancei em direção ao Zeno Grable.
— Graaaah!
— Hmph!
Ele tentou me interceptar com uma garra, mas eu desviei e apartei com a espada. Uma disputa de força direta estava fora de questão — a diferença de massa muscular entre um humano e um monstro desses era absurda. Por isso, eu tinha que usar minha espada pra redirecionar sua força, desviar dos ataques e contra-atacar ao mesmo tempo. Até a simples defesa virava uma loucura nesse contexto.
— Se isso fosse só uma luta de treino, eu já podia parar depois de marcar um ponto!
Depois de escapar do ataque do Zeno Grable, golpeei sua lateral. Tive que fazer isso em movimento, então não consegui colocar força total no golpe. Não dava pra esperar muito dano, mas pelo menos serviu pra chamar a atenção dele — pra esse grifo, eu era só uma mosquinha irritante voando em volta.
Se eu conseguisse manter isso, a Selna logo viria me ajudar a derrubá-lo. Mas até ela terminar o tratamento no Porta, minha prioridade era manter o foco do Zeno Grable em mim. Precisava aguentar o tranco.
— Grrrr!
Zeno Grable nem parecia ter se machucado. Já tinha cortado ele várias vezes, mas não tinha nem uma gota de sangue. Isso dói na alma de um espadachim...
— Grrr!
— Shah!
Investida. Desvio. Garras vindo. Desvio também. Investida, desvio. Garras, desvio. Investida, desvio. Corte. Nada. Investida de novo. Desvio.
Hmm... mesmo com um nome, ainda era um grifo, no fim das contas. Seus ataques principais eram investidas e golpes com garras ou bico. A velocidade e força eram absurdas, mas nada que fugisse muito do padrão. Do jeito que estava, talvez eu conseguisse segurar até a Selna voltar.
Mesmo assim, depois de tanto aparar e contra-atacar, minhas mãos estavam dormentes de dor, meus braços doíam, e minhas costas reclamavam. Envelhecer é uma droga. De qualquer forma, eu não podia vacilar com esse oponente. Sim, ele era grande, rápido e tinha uma pelagem incomum... mas isso não justificava o nome que deram a ele. Tinha mais coisa aí.
Ainda assim, se eu tomasse um golpe que fosse, era o fim. Então tinha que manter o foco. A pele desse bicho era absurdamente dura também. Nem parecia que eu tinha chance de ganhar.
— Graoooooh!
— Oh?
Agora que meus ouvidos estavam acostumados com o som dos rugidos, algo chamou minha atenção. O rabo do Zeno Grable entrou no canto da minha visão, se movendo inquieto. Será que, com esforço, eu conseguiria cortar aquilo? Uma pontinha de esperança nasceu dentro de mim. Talvez... só talvez, eu consiga lidar com esse monstro gigante.
— Graaaah!
— Uou!
Ops, não tenho tempo pra devaneios. Mudando de postura, Zeno Grable veio com mais uma investida.
— Shah!
Ele veio de cabeça, o que me deu a chance de tentar cortar seu rosto. Achei que poderia desferir um bom golpe, mas não deu certo — mesmo alinhando meu corte com a investida, ele era rápido demais e não consegui posicionar bem a ponta da espada. Bom, não era impossível... mas se eu tentasse, nós dois íamos colidir de frente. Ou seja, eu sairia voando.
Ia ser difícil causar dano real sem parar os movimentos dele por um instante. Não que eu estivesse querendo me exibir ou algo assim... mas estava na hora de mostrar um pouco das minhas habilidades.
— Toma essa!
Desviando de um ataque de investida, balancei minha espada longa. Escorreguei por trás de Zeno Grable e girei, usando a força centrífuga para aplicar um corte. Foi tudo no instinto, mas pela distância e pelo timing, eu tinha quase certeza que tinha acertado. Acerta logo, seu desgraçado!
—Graaaah?!
—Um golpe sólido!
Senti minha lâmina cortar profundamente o rabo comprido de Zeno Grable. Infelizmente, não foi o suficiente pra decepá-lo por completo, mas o ferimento não foi superficial. Sangue começou a pingar da abertura.
—Graaaaah!
Zeno Grable rugiu mais alto do que nunca. Parece que ficou fora de si. A maioria dos monstros e feras selvagens ficava completamente insana quando ferida, então, se houvesse chance de vitória, o ideal era matar o bicho num só golpe. E se isso não fosse possível... correr o mais rápido possível. Tentar matar um monstro forte com vários golpes pequenos era receita certa pra levar o troco na cara.
—Gaaaah!
—Uou!
Logo após o rugido de raiva, Zeno Grable lançou uma bola de fogo da sua enorme boca.
Sabia! Eu já estava esperando que ele tivesse alguma carta na manga! Afinal, era um monstro nomeado, então fazia sentido que tivesse alguma habilidade secreta—meus instintos estavam afiados. E justamente por ter deixado essa possibilidade guardada no fundo da cabeça, consegui desviar do ataque repentino de longo alcance. Além disso, depois de lutar contra a magia da Lucy, minha mente já estava condicionada a esperar esse tipo de golpe. A experiência realmente fazia diferença. Embora eu não estivesse muito a fim de agradecer a Lucy por isso...
—Graaaaah!
Enquanto desviava da bola de fogo, Zeno Grable rugiu de novo. Não parecia pronto pra outra investida, o que me deixou curioso.
—Hã?!
De repente, uma rachadura se abriu no chão da Floresta de Azlaymia. O solo começou a derreter, e uma luz incandescente subiu lentamente da profundidade.
—Mas que...! Droga!
Que porra é essa?! Que porra é essa?! Mais uma artimanha?! Ninguém me avisou disso! Mesmo em pânico, vi que o chão ao redor de Zeno Grable estava desmoronando. Não sabia até onde esse ataque alcançava, mas pelo menos toda a área perto da entrada da caverna já era. E estava perto demais.
O que eu faço? Zeno Grable não estava se movendo. Aparentemente, lançar esse ataque enorme limitava a mobilidade dele, o que já era alguma vantagem. Mas mesmo assim, era uma situação péssima. Se eu ficasse parado ali, o chão acabaria me engolindo; se eu corresse, talvez Needry e Sarlikatz sobrevivessem, mas Porta com certeza não sairia com vida. Ou... talvez nem isso? O solo ao redor da caverna já mostrava sinais de colapso, então estava ruim pra todo mundo. Não dava mais pra hesitar. Olhei pro lado e não vi a Selna em lugar nenhum. Também não vi o Porta, então só podia torcer pra que ela já tivesse conseguido salvá-lo.
—Graaaaaaaah!
—Será que dá pra você parar? Não? Merda!
Zeno Grable rugiu mais uma vez. Eu realmente não tinha mais tempo. Hora de me decidir. Correr já estava fora de cogitação—se essa tivesse sido uma opção, eu teria escolhido lá no começo. De nada adiantava ficar agonizando entre derrotá-lo ou fugir. Eu precisava agir. O chão sob meus pés tremia, e não ia demorar até ele desabar.
—Gh!
Meu inimigo estava bem na minha frente, boca escancarada. Também tinha parado de se mover. Se era pra me aproximar, o momento era agora.
—Shaaaah!
Às vezes, pensar demais só atrapalha quando o que importa é a velocidade. Então, joguei fora todas as ideias de esquiva e parti com tudo pra cima de Zeno Grable. Segurei minha espada longa com firmeza e enfiei direto dentro da boca infernal do grifo.
—Morre logo, seu desgraçado!
—Gaaaaaah!
Senti minha lâmina perfurar algo mole... mas ainda não foi o suficiente. Não consegui dar o golpe final. Do jeito que estava, teria que seguir com tudo que me restava de força e desferir uma sequência de ataques—
—H-Hã?
Contra a minha vontade, meus braços não se mexeram nem um milímetro. N-Não consigo puxar a espada?! Droga! Droga! E agora?! O chão parece que parou de ruir, mas isso aqui tá feio!
—Grrr... Gaaaah...!
—Merda!
Aproveitando minha confusão, Zeno Grable se moveu antes de mim. A pata dianteira dele era tão grossa quanto meu tronco, e ele a levantou bem alto. Por sorte, o bicho estava se movendo bem mais devagar do que antes. Eu não consegui matá-lo, mas causei um baita estrago. Mesmo assim, por mais lento que estivesse, ainda tinha peso de sobra pra me esmagar.
—Droga! Não consigo tirar isso!
Minha espada longa continuava presa, imóvel, enquanto eu me desesperava tentando puxá-la. Tentei forçar pra cima, pra baixo, qualquer coisa diferente de puxar em linha reta, mas ela nem se mexia. Zeno Grable provavelmente estava contraindo os músculos pra manter a lâmina presa.
—Ah...
Com a pata direita erguida o mais alto possível, Zeno Grable a desceu com tudo. Eu não consegui fazer nada além de encarar em choque—era como se o grifo estivesse prestes a esmagar um inseto incômodo. Pronto, morri.
—Você fez uma bela bagunça, seu desgraçado.
No instante seguinte, uma voz baixa, porém clara, ecoou no ar. Revestida por uma aura de puro instinto assassino, com um brilho flamejante nos olhos, a Lâmina Gêmea do Dragão entrou na batalha.
—Graaaaaaah!
Preso onde estava, vi ela entrando no meu campo de visão—uma aventureira de patente preta, o mais alto nível, minha parceira nessa missão de treinamento.
—Selna!
Selna Lysandra saltou de um ponto logo acima de Zeno Grable e enfiou suas duas espadas nos olhos da criatura.
Eu não fazia ideia de como ela tinha conseguido subir por cima da criatura, mas quando despencou lá de cima, suas lâminas acertaram em cheio, afundando fundo nas órbitas oculares. Imediatamente, senti algo mudar nas minhas mãos — parecia que finalmente eu conseguiria puxar minha espada longa.
— G-Grrr... Gah...!
— Que criatura teimosa!
Mesmo com uma espada enfiada na boca e outras duas nos olhos, Zeno Grable ainda estava vivo. Era melhor eu puxar minha lâmina e acabar com isso de uma vez por todas.
— Hyaaaah!
Mas antes que eu pudesse me mover, Selna girou o corpo, ainda com as espadas cravadas nos olhos de Zeno Grable, e usou a força centrífuga pra fazer um corte horizontal que atravessou a cabeça da criatura. Senti a vibração pelo cabo da minha espada — dava pra perceber que ela tinha rasgado carne, osso e sabe-se lá mais o quê.
A força e a técnica dela eram impressionantes. Realmente, quem é rank negro tá em outro nível... Mesmo que minha espada estivesse posicionada igual à dela, duvido que eu conseguiria aplicar um golpe de acompanhamento com tanta habilidade e precisão. Mais uma vez, fiquei muito consciente da força da Selna. Sinceramente, será que eu fui mesmo necessário nessa luta?
— Ufa...
Com o impacto do golpe da Selna, minha espada foi puxada pra fora sozinha. Ainda segurando o cabo, acabei me sentando no chão e soltando um baita suspiro. Eu tava suando feito louco. Se o ataque da Selna tivesse vindo um segundo depois, provavelmente eu já estaria morto. Fazia tempo que eu não encarava a morte assim, de frente.
Olhei de novo para Zeno Grable. As espadas tinham sido cravadas fundo nas órbitas e depois atravessaram o crânio. Nem mesmo um monstro nomeado sobreviveria a algo assim. E, de quebra, o terreno ao redor também estava um caos. Como a gente interrompeu o colapso do solo à força, a terra afundou de maneira aleatória em vários pontos à nossa volta.
Selna guardou suas duas espadas.
— Consegui subir com facilidade graças ao tempo que você nos deu, Mestre. Muito obrigada.
— Que isso, não precisa me agradecer. Eu nem consegui derrotar a coisa.
Na real, eu é que devia estar agradecendo a ela. As coisas estavam indo bem até eu enfiar minha espada na boca do monstro... mas ali eu quase fui pro caixão.
— Hm...?
Na hora de devolver a espada pra bainha, percebi que o peso na minha mão estava estranho. O equilíbrio da lâmina estava esquisito.
— Aaah...
Tinha quebrado — bem no meio. Metade da lâmina até a ponta tinha desaparecido. Faz sentido. Ela deve ter se partido dentro do Zeno Grable, e foi por isso que a sensação mudou e eu consegui puxar de volta.
— M-Me perdoe, Mestre! — disse Selna, aflita. — Provavelmente ela foi atingida durante o meu ataque!
Balancei a cabeça.
— Tá tudo bem. Não precisa pedir desculpas. Você fez o que precisava ser feito na hora.
Minha espada provavelmente cedeu à força das lâminas da Selna. Não era uma arma malfeita, mas também não era nenhuma obra-prima — só uma espada longa comum. Já as armas dela eram claramente afiadas pra caramba. Com a força que ela aplicou, não era de se espantar que a minha tenha quebrado.
— Não se preocupe com a minha espada — falei. — O mais importante agora é o Porta. Como ele tá?
Desviei o olhar do rosto ensopado de sangue de Zeno Grable e encarei a entrada da caverna. Needry e Sarlikatz nos observavam em choque. Um pouco mais adiante, vi Porta caído no chão.
— Ele não corre risco de vida — respondeu Selna. — Agora só precisamos levá-lo de volta e estabilizá-lo. Ele vai se recuperar.
— Ótimo. Não poderia pedir mais do que isso.
Ser aventureiro sempre envolve riscos. O ideal é conseguir voltar vivo. Pelo menos, é nisso que eu acredito, mesmo não sendo um aventureiro de verdade. Ninguém troca a própria vida por prestígio. Enfrentar perigos inimagináveis, explorar terras desconhecidas e conseguir voltar com vida — isso é o que realmente importa. Nesse sentido, essa missão foi um baita desastre pros três novatos, mas também teve seu lado de sorte.
— Enfim, acho que estamos salvos. Valeu, Selna.
De verdade, fiquei feliz que a Selna estava com a gente. Eu não teria vencido sozinho. Pra ser honesto, eu teria morrido. E, se isso tivesse acontecido, os outros três também estariam mortos agora. Aqueles jovens ainda têm um futuro brilhante pela frente, e só por protegê-los eu já me sentia realizado.
— Não foi nada — respondeu Selna. O olhar dela ainda estava em chamas, determinado, enquanto dizia: — Mas... e a sua espada...
— Esquece isso já — retruquei. — Essa aqui é a sepultura da minha espada. Vamos deixar por isso mesmo.
Por algum motivo, aquilo parecia pesar bastante pra Selna. Mas ela não precisava se preocupar tanto assim. Seria mentira dizer que eu não tinha apego àquela lâmina... mas ela não era nada de especial.
— S-Senhor Gardinant! Senhora Lysandra!
Achando que o perigo já tinha passado, Needry correu da caverna na nossa direção. Sarlikatz vinha logo atrás, carregando Porta nos braços. Ele não conseguia andar sozinho, então não dava pra deixá-lo lá.
— Needry. Que bom ver que vocês estão bem — falei.
— S-Sim! E-Eu... muito obrigada! — respondeu, ainda tremendo de medo.
— Ha ha ha — ri. — De nada.
Eu não tinha protegido ninguém por querer agradecimentos, mas não vou mentir: foi bom ser reconhecido. Mesmo que, sinceramente, quem deu tudo de si foi a Selna, não eu. De qualquer forma, não era bom eles continuarem tão tensos. Ninguém sabia quando o chão ia voltar a desmoronar, e todos já deviam estar mentalmente exaustos. Precisávamos voltar pra Baltrain o mais rápido possível.
— Então, vamos nessa? — perguntei. — Selna?
Justo quando eu ia sugerir sair da Floresta Azlaymia, Selna começou a vasculhar o corpo de Zeno Grable.
— É um monstro nomeado, então precisamos levar alguma prova de identificação — explicou. — Um pedaço de pele... e uma garra já servem.
— Entendi.
Fazendo as contas, o que ela disse fazia sentido. A guilda dos aventureiros tinha se dado ao trabalho de designar Zeno Grable como um alvo especial. Eles não poderiam simplesmente aceitar um testemunho verbal de que o monstro havia sido derrotado.
— Hmph!
Com uma rápida expiração, Selna desferiu um golpe na base de uma das garras de Zeno Grable. Após um estalo alto, a garra caiu no chão, cortada desde a raiz do que provavelmente era um dedo.
— É bem dura... — comentou Selna. — Parece que vai servir bem como matéria-prima.
— Hmm, é mesmo?
Eu só tinha ouvido boatos, mas aparentemente alguns aventureiros usavam materiais dos monstros que derrotavam pra forjar suas próprias armas. Eu não tinha absolutamente nada a ver com esse estilo de vida, então minha espada era feita de minerais bem comuns. E essa mesma espada tinha acabado de morrer, aliás. Hmm, ficar sem uma espada na cintura me deixa inquieto. Vou ter que comprar uma nova quando voltarmos pra Baltrain. Talvez eu possa passar naquela forja onde a Allusia me levou, ou algo assim.
— Talvez fosse uma boa ideia usar a garra do Zeno Grable pra forjar uma nova espada pro senhor, Mestre — sugeriu Selna.
— Não, não, essa é sua — respondi, recusando educadamente. — Eu passo.
Eu não tinha sido quem o derrotou. Além disso, sentia que uma arma absurda sairia disso, então preferi recusar. Uma espada comum tava de bom tamanho pra mim. Como se faz uma espada a partir de uma garra, afinal? Fazer uma lança com ela faria muito mais sentido.
— Entendo... — murmurou Selna. — Então, voltamos? Mestre, quando chegarmos a Baltrain, teremos que reportar que o monstro nomeado foi eliminado. Poderia me acompanhar?
— Claro, não me importo.
De qualquer forma, precisaríamos reportar que os novatos tinham completado o treinamento. Não parecia que isso fosse levar muito tempo.
— Hee hee, é o seu retorno triunfal! — disse Selna. — Eu também fico orgulhosa disso.
— Para com isso. Quem derrotou foi você.
A boca aberta do grifo, meu golpe impensado com a espada... O dano significativo que causei foi puro acaso. No entanto, não havia dúvidas de que Selna foi quem deu o golpe decisivo. Provavelmente teria sido melhor se eu tivesse ido salvar o Porta enquanto a Selna enfrentava o Zeno Grable. Mas no fim vencemos, então acho que não importa tanto agora. Ninguém morreu, e não dá pra pedir mais do que isso. Mas foi por pouco... Um passo em falso e eu teria ido dessa pra melhor.
— Certo então, vamos voltar pra Baltrain? — perguntei.
— Sim!
E assim, depois de uma jornada turbulenta e perigosa, caiu o pano sobre o treinamento prático dos novos aventureiros.
◇
Refizemos o caminho que usamos pra chegar à masmorra e deixamos a Floresta Azlaymia. Por sorte, a carruagem ainda estava exatamente onde a deixamos. Viajamos por um tempo, montamos acampamento pra passar a noite, e depois de mais algumas horas na carruagem no dia seguinte, as muralhas de Baltrain estavam à vista.
— Srta. Lysandra, Sr. Gardinant, muito obrigado mesmo!
— Tá tudo bem, tá tudo bem. Só fizemos nosso trabalho.
Porta estava me agradecendo pela milésima vez. Ele tinha acordado quando montamos acampamento na noite anterior e, depois de ouvir os detalhes de Needry e Sarlikatz, ele e Selna foram alvos de inúmeras reverências. Já fazia um dia desde o incidente com Zeno Grable, e ele tinha se recuperado um pouco—conseguia andar, pelo menos. Fiquei extremamente aliviado por ele não ter sofrido ferimentos permanentes. Talvez as feridas tenham sido graves de fato, mas foram minimizadas graças à poção que Selna usou.
Porta, claro, ainda estava desenvolvendo suas habilidades com a espada—ele era do tipo que colocava toda sua sinceridade nos golpes. Nesse sentido, tenho a impressão de que ele vai se tornar um excelente espadachim no futuro. Quanta força será que dorme dentro dele? Só o tempo dirá.
— Primeiro, se concentra em descansar e se recuperar bem — instrui.
— Vou sim! — exclamou Porta. — Nada de bom vem da imprudência.
— Esse é o espírito. Agora vai descansar.
Porta também ganhava pontos por ser tão honesto. Em geral, como ele mesmo disse, nada de bom saía de agir impulsivamente. Era melhor estar em plena forma física e mental antes de correr atrás dos seus objetivos. Muitos aventureiros eram do tipo impulsivo, querendo enriquecer rapidamente. Esse tipo de gente era mais propensa a se esquecer de si e se jogar direto no perigo. Embora eu achasse isso um pouco tolo, por outro lado, dava pra dizer que quem não tem esse tipo de ousadia talvez nem seja feito pra essa vida de aventureiro. Ganância, confiança, perigo—os que sabiam equilibrar esses três elementos eram os que sobreviviam e evoluíam. Morrer era perder tudo.
— Chegamos em Baltrain — anunciou Selna do banco do cocheiro. Ela insistiu em assumir o lugar de Needry e Sarlikatz na volta. — Precisamos ir direto à guilda pra fazer o relatório. Tudo bem pro senhor, Mestre?
— Sim, parece ótimo.
Tecnicamente, ter alguém do Rank Negro como cocheira pessoal era um absurdo pros novatos, mas Selna era uma aventureira com esse tipo de consideração. Tive muitas oportunidades de testemunhar seu espírito inabalável recentemente, mas no fundo ela era uma pessoa realmente gentil, com esse instinto natural de proteger os outros. Bom, ela sempre foi assim mesmo.
— O que foi, Mestre?
— Ah, nada.
Ops, acabei encarando a Selna sem querer. Mas ela realmente tinha crescido de forma impressionante. Passei pouco tempo cuidando dela quando era pequena, mas ver o quanto progrediu ainda me deixava com o coração aquecido.
Descemos no ponto habitual da carruagem e seguimos a pé até a guilda dos aventureiros. Sarlikatz apoiava Porta no ombro. Eu queria que ele fosse descansar logo, mas primeiro precisava fazer o relatório na guilda—só mais um pouco de esforço.
Entramos pela porta e fomos direto ao balcão. Selna falou como nossa representante e começou o processo.
—O mestre da guilda, por favor.
—S-Sim, imediatamente.
Quando a recepcionista olhou para Porta, pareceu perceber que aquilo não era um assunto trivial. Mas impressionava o fato de ela não ter se desesperado com a situação. Talvez isso fosse algo comum na guilda.
Pouco tempo depois, o mestre da guilda de cabelos brancos, Nidus, desceu as escadas — acompanhado por Meigen. Ambos lançaram um único olhar para Porta e basicamente entenderam o que havia acontecido. Assim como da primeira vez que o vi, tive a impressão de que Nidus tinha nervos de aço. A idade traz sabedoria, claro, mas a postura dele também devia ser fruto do seu passado como aventureiro.
—Obrigado por esperar... — disse Nidus. — Imagino que algo tenha acontecido?
—O treinamento em si correu bem — explicou Selna. — No entanto, depois disso, encontramos o monstro nomeado Zeno Grable na Floresta de Azlaymia. Viemos relatar sua eliminação.
—Inacreditável...!
O saguão inteiro da guilda dos aventureiros explodiu em choque. Até então, eu nunca tinha pensado muito sobre o quão ameaçadores os monstros podiam ser. Sabia da existência de monstros nomeados, mas como nunca tinham tido nada a ver comigo, também nunca tive a chance de ouvir os detalhes sórdidos.
—Trouxemos provas, só para constar — acrescentou Selna, colocando o pelo e a garra de Zeno Grable sobre o balcão com um baque surdo.
—Hmm... Parece que é verdade.
Antes que eu percebesse, estávamos cercados pelos olhares curiosos de aventureiros que nos encaravam do outro lado do salão.
—Foi você sozinha, Lysandra? — perguntou Meigen.
—Não. Trabalhei junto com o Mes... com o Sr. Gardinant. Só dei o golpe final.
Por favor, não exagera as coisas assim tão casualmente...
—Entendo... — Nidus se virou para mim e fez uma reverência profunda. — Muito obrigado, Sr. Gardinant.
—N-Não foi nada. Não precisa disso tudo.
Queria muito que eles parassem com isso. É verdade que vencemos, mas foi a Selna que fez todo o trabalho pesado. Corri de um lado pro outro servindo de distração e atrapalhando Zeno Grable o quanto consegui — nem cheguei a causar dano real. Todo esse elogio só me deixava desconfortável.
—Deve ter sido difícil pra vocês três também — disse Nidus aos novatos atrás de mim. — Estou feliz por ver que voltaram com vida.
Como mestre da guilda, ele provavelmente era a autoridade máxima ali. Normalmente, seria impensável alguém desse nível demonstrar tanta consideração por aventureiros de patente bronze. Nidus é uma boa pessoa, com um coração gentil — isso prova isso.
Nidus se voltou para Selna.
—Vamos montar uma equipe de coleta imediatamente e enviá-los para recuperar o corpo de Zeno Grable.
Selna assentiu.
—Por favor, faça isso. Normalmente eu teria ficado para cuidar disso... mas como os novatos e o Sr. Gardinant estavam comigo, priorizei o retorno.
—Uma decisão sábia. Me diga apenas a localização do monstro e deixe o resto com a guilda.
Nidus e Selna começaram a organizar tudo por conta própria. Parece que vão recuperar o corpo de Zeno Grable. Bem, Selna tinha comentado algo sobre materiais, então provavelmente vão aproveitar cada pedaço do cadáver.
—Um monstro nomeado foi derrotado, então a notícia precisa se espalhar de forma grandiosa — disse Selna.
—Com certeza. Vamos agilizar esses preparativos também — respondeu Nidus, de forma surpreendentemente animada.
Vão anunciar isso para o público? Um monstro nomeado era tão importante assim?
Resolvi me intrometer.
—Hum, talvez soe meio do nada, mas...
—O que foi, Sr. Gardinant? — perguntou Nidus.
Achei que era um bom momento para perguntar mais sobre monstros nomeados. Afinal, eu tinha lutado contra um e ajudado a derrotá-lo sem saber nem o básico sobre o assunto.
—Já ouvi falar de monstros nomeados... mas sou bem ignorante no assunto, então não sei muita coisa.
Nidus riu.
—Ha ha ha ha, é mesmo?
Admito que minha ignorância era um pouco embaraçosa, mas não podia reclamar se zoassem por causa disso. Como diz o ditado: “Perguntar pode ser uma vergonha por um momento, mas não perguntar e continuar ignorante é uma vergonha para a vida toda.” Não sei se se aplica aqui, mas enfim...
—Meigen, explique.
—Sim, senhor.
O mestre da guilda passou a bola? De qualquer forma, será que tá tudo bem eu estar tomando tanto tempo desses dois chefões da guilda? Bom, agora já era.
—Nós, da guilda dos aventureiros, temos um papel importante na identificação de espécimes únicos e na atribuição de nomes — explicou Meigen. — Atualmente, existem quarenta monstros nomeados confirmados dentro do Reino de Liberis. Zeno Grable era um deles.
—Quarenta, hein? — Não parece um número tão grande assim. Então a gente derrubou um desses? Olha só que feito.
—Naturalmente, esse número varia conforme monstros são eliminados ou variantes novas são descobertas... mas, em essência, qualquer pedido envolvendo monstros nomeados não pode ser aceito por aventureiros abaixo da patente platina. Você deve entender o quão grande é a ameaça que representam.
—Entendo... Obrigado.
Depois da explicação de Meigen, o silêncio tomou conta do lugar por um momento. Então monstros nomeados eram para ranks platina e acima... Pensando bem, Randrid, que agora está em Beaden, era um platina. Bem, um platina aposentado. Ele tinha um domínio impressionante da espada, e era raro encontrar alguém que o superasse.
E a Selna eliminou de forma limpa um monstro nomeado de ameaça enorme... Ela realmente está em outro nível.
—A propósito, Sr. Gardinant — disse Nidus, me encarando diretamente. Dava para ver confiança e entusiasmo no olhar dele.
—Sim? O que foi?
—Você tem interesse em se tornar um aventureiro?
—Não, obrigado.
Rejeição instantânea! Eu sou só um velhote humilde!
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