Capítulo 124 – Caçada
Naquela manhã, o príncipe Eligion foi visitar o quarto da Nyau.
— Nyau, você tá livre hoje?
— Sim, estou.
— Eu tô prestes a sair, quer vir comigo?
— Sim, claro, tudo bem.
Como era impossível recusar um pedido da família real, a sábia Nyau assentiu com a cabeça. Bem, já que ela realmente não tinha nada pra fazer, não havia problema em acompanhá-lo.
— Pra onde a gente vai?
— Pensei em sair pra caçar um pouco, só pra variar. Tenho estado ocupado com os preparativos da cerimônia de triunfo ultimamente, mas finalmente consegui um tempo livre.
— É mesmo?
Caçar, hein? Montar a cavalo, derrubar feras com um arco... não era exatamente algo que a Nyau se sentia confiante em fazer.
— E, sabe... eu tenho estado um pouco curioso sobre você.
— Hã…?
Sem entender o motivo do interesse do príncipe Eligion, Nyau inclinou a cabeça, confusa.
— Você gosta do Kiska-kun?
—――――!!
Na mesma hora, o rosto da Nyau ficou vermelho. Ela nunca imaginou que o príncipe Eligion estivesse ciente dos sentimentos dela. Será que ela deixava transparecer tanto assim?
— Bem, eu achei que não era da minha conta me meter em assuntos de amor, mas vendo você desse jeito, é frustrante. Você devia ser mais direta na sua abordagem.
— Mas o Kiska-san já tem uma namorada.
— É só uma namorada. Se fossem casados, talvez fosse uma desculpa, mas não sendo, não tem problema. Bom, mesmo se fossem, eu não acharia nada demais. Afinal, neste país, casos extraconjugais são bem comuns.
De fato, o que o príncipe Eligion dizia era verdade. Até mesmo o rei atual tinha várias amantes além da rainha, e isso era um segredo aberto. Não era algo incomum. Ainda assim, Nyau não tinha coragem de se envolver em algo assim.
— Mas com alguém como eu, não acho que o Kiska-san prestaria atenção.
Nyau era baixinha e não tinha muito charme feminino, e isso a deixava insegura.
— Eu não acho que isso seja verdade.
— Hã?
— É. Porque o Kiska-kun vive olhando pra você. Quando vocês se encaram, dá pra ver que ele gosta de você.
— É-é mesmo…
Pelo visto, Kiska realmente notava sua presença. Até o príncipe Eligion comentar, Nyau não tinha percebido. Saber disso deu a ela uma vontade súbita de comemorar ali mesmo.
— No fim das contas, quem decide é você, mas talvez valha a pena reunir um pouco mais de coragem.
— Mas eu não sei o que fazer…
— Tem uma coisa óbvia que você pode fazer.
Dizendo isso, o príncipe Eligion sussurrou no ouvido de Nyau:
— Derruba ele na força.
Palavras completamente inesperadas vindas do aparentemente inocente príncipe Eligion deixaram Nyau totalmente sem reação.
— No meu ver, se você fizer isso, o Kiska-kun vai retribuir com certeza. Tenta aí.
— E-eu entendi. Vou dar o meu melhor.
— Ah, tô torcendo por você.
Se o príncipe Eligion foi tão longe assim, talvez valesse a pena tentar, pensou Nyau.
De repente, o príncipe Eligion parou em frente a um quarto e bateu na porta.
— Ei, bom dia, Kiska-kun.
— Bom dia. Aconteceu alguma coisa, Eligion-sama?
Kiska apareceu à porta, e logo atrás dele estava Agetha. Ao perceber que os dois estavam juntos no quarto, Nyau se desanimou.
— Bem, na verdade eu tava indo me divertir um pouco. Quer vir junto?
— Claro, vou sim.
Nyau ficou surpresa, não esperava que Kiska fosse acompanhá-los. O príncipe Eligion olhou pra ela e piscou.
Provavelmente, o príncipe Eligion estava usando essa oportunidade pra incentivar discretamente a Nyau a se aproximar mais do Kiska.
— Então, pra onde vamos?
— Ah, pensei em ir caçar num lugar mais distante.
— Caçar? Não sei se consigo fazer isso…
— Relaxa. Eu te ensino tudo.
— Obrigada.
— Mmm, Kiska, você não ia passar o dia comigo hoje?
De repente, Agetha demonstrou insatisfação.
— Ah, Agetha, de vez em quando tudo bem, né? Tem dias que são assim.
Kiska tentou acalmar a Agetha.
— Agetha-san, achei que você também viria com a gente. Me enganei?
Disse o príncipe Eligion.
— Tá bom, eu vou também. Não quero ficar longe do Kiska.
Nyau fez um biquinho, visivelmente contrariada. Pelo jeito, se não lidasse com a Agetha de algum jeito, nunca conseguiria ficar sozinha com o Kiska.
◆
Na linha do tempo anterior, os quatro também tinham saído pra caçar.
Da última vez, o dia terminou sem nenhum incidente importante, então provavelmente seria o mesmo dessa vez. Sendo assim, não haveria problema em participar de forma descontraída.
— Kiska-kun, ele foi praquele lado!
O príncipe Eligion, montado num cavalo, gritou.
— Já tô indo atrás!
Controlando o cavalo, eles começaram a perseguir um javali em fuga. Enquanto cavalgava, Kiska puxou o arco. A flecha voou com um assobio e perfurou o corpo do javali. Acertou o alvo. Na linha do tempo anterior, ele nem conseguiu pegar nenhum animal. Talvez a experiência daquela época tenha sido útil agora.
— Como esperado do Kiska-kun.
— Que nada, eu só tive sorte mesmo.
— Certo, você poderia levar o javali até a cabana? Eu vou procurar outros animais.
— Entendido.
Como foi pedido, Kiska levantou o javali e guiou o cavalo.
Pensando bem, tinha perdido de vista a Agetha e a Nyau. Isso aconteceu porque ficou entretido demais perseguindo o javali com o príncipe Eligion. Bem, como muitos subordinados do príncipe estavam com eles, não devia haver problemas.
— Ah, Kiska-san.
— Nyau? Você tava aqui esse tempo todo?
— Sim. Tava cansada, então pensei em descansar um pouco. Foi o Kiska-san quem pegou esse javali?
— Ah, sim. Por sorte, a flecha acertou.
— Mesmo que tenha sido sorte, ainda assim é impressionante.
Depois disso, Kiska colocou o javali no chão com cuidado. Por ora, devia estar tudo bem deixar ele ali, na frente da cabana.
— Hm, Kiska-san…
— O que foi, Nyau?
— Bom, já que estamos aqui, que tal a gente descansar um pouco lá dentro?
Por “lá dentro”, Nyau provavelmente queria dizer dentro da cabana. Embora chamar aquilo de cabana fosse até modesto demais, já que era maior que uma casa comum. Aparentemente, os campos de caça daquela região eram administrados pela família real, e essa cabana era uma das propriedades deles.
— Claro, tudo bem.
Não havia nenhum compromisso explícito de voltar imediatamente para o príncipe Eligion, então não faria mal passar um tempinho com a Nyau.
— S-sim, ótimo. Vamos juntos!
Com essa resposta, Nyau pegou a mão de Kiska e o puxou para dentro da cabana.
Kiska se assustou quando ela segurou sua mão de repente. Nunca imaginou que teria outra chance de ficar tão próximo da Nyau assim.
— Ah, eu vou preparar um pouco de chá.
— Ah, obrigado.
O interior da cabana era espaçoso, com sofás grandes e até uma cozinha. Kiska se sentou no sofá e esperou Nyau voltar.
— Hm, aqui está.
— Ah, obrigado.
Kiska agradeceu e deu um gole no chá que Nyau havia preparado.
— Esse chá tá incrivelmente gostoso.
Ele nunca tinha provado um chá tão bom. Seria porque foi feito com folhas fornecidas pela família real? Ou será que a Nyau era mesmo habilidosa em fazer chá?
— Que bom que você gostou.
Nyau também se sentou ao lado de Kiska, tomando o próprio chá. No entanto, ele não pôde deixar de notar que Nyau estava perto... até demais. Se ele movesse um pouco o cotovelo, acabaria encostando nela — era esse o nível de proximidade.
— Hm, eu queria me desculpar por tudo.
— Hã? Do que você tá falando?
— Lá na masmorra, eu te causei muitos problemas…
— Não, eu realmente não me importo. Agora eu entendo que não dava pra evitar. Além disso, a Heroína Agetha pode ser meio assustadora, porque às vezes não dá pra entender o que ela tá pensando... mas eu confio em você, Kiska-san.
— Sério? Fico feliz que você diga isso.
— Não foi nada demais.
Kiska estava preocupado se a Nyau talvez não gostasse dele, mas parecia que não era o caso — e isso o aliviou um pouco.
— Ah, e eu tava preocupado com você, Nyau.
— Hã? Por quê?
— Bom, você tava chorando na carruagem.
—E-eu só... entrou um cisco no olho…
Aquelas lágrimas definitivamente não eram só por causa de um cisco. No entanto, se ela queria manter isso em segredo, talvez não fosse certo insistir. Mas, se a Nyau estivesse com algum problema, Kiska queria estar lá por ela.
— Tem certeza que foi só isso?
Então, ele se virou para Nyau, que estava sentada ao seu lado, e falou. Surpreendentemente, o rosto dela estava mais perto do que ele imaginava, e isso o pegou desprevenido. Kiska tentou se desculpar rapidamente, virando o rosto, mas Nyau não deixou.
Isso porque ela segurou firme o rosto dele.
— Você quer mesmo saber por que a Nyau tava chorando?
Nyau disse essas palavras.
◆
— Kiska, onde é que você foooi!
Agetha gritou no meio da floresta.
— Urgh, me perdi…
Olhando ao redor, tudo o que conseguia ver eram árvores — nenhuma pessoa à vista.
— Ei, não sai andando assim sozinho!
O cavalo que ela montava parecia ter vontade própria e estava indo pra outra direção. Montaria não era o forte da Agetha, especialmente considerando sua experiência quase nula com isso.
— Kiska, me ajudaaa!
Apesar dos gritos, as palavras da Agetha nunca chegaram até Kiska.
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