Capítulo 130 – Identidade Verdadeira
— Ei, já que estamos aqui, será que você... pode me ajudar a colocar isso?
Agetha Negra hesita enquanto estende uma fita.
— Eu não faço a menor ideia de como amarrar uma fita, sabia?
— Bom, eu também nunca fiz. Não conseguiria amarrar uma sozinha.
— Entendi. Então, vou te ajudar.
Depois disso, nós dois lutamos um pouco pra conseguir amarrar a fita no cabelo dela.
— E aí, como ficou?
Agetha Negra tinha prendido o cabelo em duas marias-chiquinhas, uma de cada lado.
— Tá fofa.
— É-é mesmo...
Ela assentiu, envergonhada, baixando o rosto. Parece que ela gostou mais do que eu imaginava, então valeu a pena o esforço.
◆
Já se passaram nove dias desde que derrotamos o Rei Demônio. A gente, que tinha saído de propósito da capital real, estava agora a caminho do Principado de Lind, que ficava no país vizinho ao Império Ritzken.
O Principado de Lind, anos mais tarde, se uniria com outros países pra formar a Federação de Nagara.
A cidade em que chegamos era a capital do Principado de Lind, chamada Gran Lind.
— Finalmente chegamos — disse Agetha Negra, que vinha cavalgando à frente, soltando um suspiro.
— Foi uma bela viagem — respondi.
— Já está tarde hoje, então agora é só comer e dormir.
— Era esse o plano.
— É mesmo?
Depois de passarmos pelos portões, jantamos num restaurante qualquer e fomos procurar uma hospedaria.
— Hoje é o nono dia... — murmurei, deitado na cama.
Na minha linha do tempo anterior, no nono dia após derrotar o Rei Demônio, fui morto por alguém.
Mesmo sabendo que não vou morrer hoje, já que estamos longe da capital e no Principado de Lind, ainda assim sinto um nervosismo no peito.
— Ei — disse de repente a Agetha Negra deitada ao meu lado.
— Você teve um relacionamento... físico com "ela", né?
Na hora entendi que o "ela" se referia à outra personalidade da Agetha, e não à pessoa na minha frente.
Por que perguntar isso do nada?
— Sim, tive.
Achei que não tinha por que esconder e confirmei. Afinal, Agetha e Agetha Negra são só duas facetas da mesma pessoa.
— E... você também gostaria de fazer esse tipo de coisa comigo?
Agetha Negra parecia envergonhada, se mexendo sem jeito. O que eu deveria dizer? Eu gosto dela, então dizer que não quero seria mentira. Mas será que posso simplesmente dizer isso?
— Bom, é... eu gosto de você, então... sim, acho que gostaria — falei, depois de hesitar um pouco, decidindo ser honesto.
— Entendo. Então você gosta de mim. Bom, fazer o quê. Vem logo —
Falando isso, Agetha Negra se abriu sobre a cama.
— Hã...
Sem entender direito o que ela queria dizer, inclinei a cabeça.
— Aah, que lerdeza! Tô dizendo que pode fazer o que quiser comigo! Não me faz falar essas coisas constrangedoras!
Ah, entendi. Eu realmente não esperava que ela fosse propor algo assim, então não saquei de primeira.
— Não precisa forçar, sabe.
— Eu não tô forçando nada. É só que... achei injusto que ela tenha feito e eu não. Ou você não gosta de ficar comigo, Kiska?
Que fofura. Diante do carinho sincero da Agetha Negra, não deu pra resistir.
— Agetha, eu gosto de você.
Quando percebi, já estava por cima dela.
◆
Depois que tudo acabou, voltei à calma.
Eu tinha me envolvido com as duas Agethas. Por um momento, pensei: será que tá tudo bem?
Bom, são a mesma pessoa, duas metades de um todo. Não importa muito com qual eu me envolvi.
Então Agetha vai entender... e me perdoar.
...Será mesmo?
— Ei, vai sair?
De repente, Agetha Negra se levantou da cama e começou a se vestir.
— Só quero tomar um ar fresco.
Achei perigoso sair a essa hora da noite, mas quando olhei pela janela, o sol já estava começando a nascer. Parece que o tempo passou voando.
— Eu volto logo.
Disse isso e saiu do quarto.
◆
Agetha Negra, depois de sair da hospedaria, caminhava pelos becos, escolhendo lugares desertos onde mesmo durante o dia pouca gente passaria.
— Foi mal, acho que te fiz esperar.
Ela parou e falou com uma figura do outro lado da rua.
— Tá tudo bem. Não me incomoda.
Apesar das palavras, o tom deixava claro o incômodo.
— Entendo.
— Ei, o que é isso aí?
O dedo da outra pessoa apontava para algo.
Era a fita presa no cabelo da Agetha Negra.
— Ele me deu de presente.
— É mesmo?
Deu pra ouvir um som baixo, como de dentes rangendo.
— Tá com ciúmes?
A forma como falou foi quase provocativa.
— É, tô mesmo.
— Nem pensa em pegar. Isso é um presente dele pra mim.
— Entendi...
A figura cuspiu as palavras.
— Podemos começar logo?
— É, ficar conversando não muda nada.
Enquanto falavam, Agetha Negra abriu sua Caixa de Itens e puxou uma espada do vazio.
A outra também empunhava uma espada.
— Então vamos.
— O duelo entre você e eu.
Num instante, um estrondo ecoou.
◆
— Ela tá demorando...
Eu esperava no quarto pela Agetha Negra, mas ela ainda não tinha voltado.
Fiquei preocupado.
Acho que ela seria capaz de lidar com qualquer agressor, mas me lembrei da figura misteriosa que matou a Agetha na linha do tempo anterior.
Agora que penso bem, hoje é o nono dia desde que derrotamos o Rei Demônio.
Na capital, eu morri justamente no nono dia.
Mesmo estando longe de lá, uma inquietação tomou conta de mim.
— Vou dar uma olhada lá fora.
Falei isso, abri a porta e fui explorar os arredores da hospedaria.
De repente, ouvi o som de carne sendo cortada.
Segui o som e vi uma garota com uma espada na mão.
Mesmo de costas, eu sabia quem era.
Era a Agetha.
— Ei, Agetha. O que você tá fazendo?
Falei isso enquanto me aproximava.
A luta parecia já ter acabado. Agetha estava de pé, e a outra pessoa estava caída numa poça de sangue, sem se mexer.
Talvez Agetha tenha derrotado quem queria nos matar. Esse pensamento passou pela minha cabeça.
— Kiska —
Ela se virou e chamou meu nome.
Mas então, um desconforto me invadiu.
A que estava diante de mim não era a Agetha Negra, e sim a Agetha “normal”.
Bom, como ela tem dupla personalidade, achei que talvez tivessem trocado de lugar.
Até o momento seguinte.
Foi então que percebi.
A pessoa caída na ponta da espada dela...
Era a Agetha Negra.
Sim, havia duas Agethas na minha frente.
Uma Agetha, com a espada na mão. E a outra, a Agetha Negra, caída numa poça de sangue.
— Agora está tudo às claras.
Agetha disse isso e riu.
— Quer dizer que foi você quem me matou na linha do tempo anterior?
— É, fui eu mesma.
Ela assentiu.
Aquele sorriso... só podia ser coisa de louco.
◆ ◆ ◆
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